DIÁRIO DE UM PROFESSOR

O Trabalho Invisível

Há matérias que fazem parte do quotidiano de um professor que dificilmente se podem enquadrar no contexto funcional da profissão, mesmo se são incontornáveis, por manifesta falta de meios, nas escolas e em seu redor, para funcionar como primeira linha na defesa dos alunos contra ameaças muito sérias quanto à sua integridade física e emocional.
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Há matérias que fazem parte do quotidiano de um professor que dificilmente se podem enquadrar no contexto funcional da profissão, mesmo se são incontornáveis, por manifesta falta de meios, nas escolas e em seu redor, para funcionar como primeira linha na defesa dos alunos contra ameaças muito sérias quanto à sua integridade física e emocional. Ameaças que muitas vezes partem de muito perto e de quem deveria ter esse primeiro papel de defesa e não funcionar como principal ameaça.

Há já muitos anos, numa disputa com o prestador de um serviço na minha casa, que claramente só estava preocupado em sacar o seu dinheiro ao construtor e deixar quase tudo na mesma, as coisas subiram de tom e perante as minhas acusações de desleixo e falta de profissionalismo, a criatura em causa respondeu-me algo como “tu não tens o direito de me falar assim porque eu já sou pai”. Eu fiquei sem perceber bem o que é que as canalizações tinham que ver com a condição parental, pelo que lhe respondi o equivalente vernáculo a “para seres pai, em termos biológicos, basta saberes copular e nem sequer precisa ser com grande jeito”.

 A dita criatura era mais ou menos da minha idade, conhecíamo-nos vagamente da escola e a partir desse dia, nem truz, nem muz entre nós, nem ele voltou a entrar-me em casa para não fazer aquilo por que queria ser pago, nem mais atravessámos a rua na mesma passadeira.

Vem isto a propósito da infelicidade de algumas crianças nascerem, sem terem tido direito a voto na matéria ou de alguma forma escolherem quem as fez vir ao mundo, para depois fazer da sua vida um permanente martírio. E não falo particularmente de condições materiais, mas sim das condições humanas mínimas para se ser mãe ou pai. Ser-se pai ou mãe é muito mais do que algo que decorre da biologia e da genética e há quem manifestamente não o mereça. 

Lidar com certas situações, decorrentes deste tipo de graves inadaptações, a partir da escola é algo muito complicado e um dos papéis menos visíveis dos professores (e por maioria de razão dos directores de turma) e um daqueles que não dão pontos na avaliação do desempenho e muito menos aparece referido ou valorizado nas crónicas dos especialistas instantâneos em Educação que acham que a “qualidade” do professor se mede apenas em horas de aulas.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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