DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Impreparação

Há gente a trabalhar até à exaustão, mas o sistema está mal montado ou então foi todo virado para a vacinação e tudo o resto ficou à deriva
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Ao longo destas duas semanas foi possível constatar, em primeira mão, o quanto o pensamento mágico acerca da pandemia tomou conta dos decisores políticos e como isso tem reflexos dramáticos no terreno, quando a situação começa a piorar de novo, mesmo que ainda em modo relativamente ligeiro.

Chegadas as vacinas e iniciado o processo de vacinação, em especial depois de ter sido entregue a quem tem ar sério e não larga a farda em público, alguém terá pensado que essa se tinha tornado a única prioridade e vai de esquecer tudo o resto que necessita de continuar a funcionar, desde a testagem aos serviços de saúde ligados aos contactos relacionados com as situações de isolamento profilático e rastreio epidemiológico.

É uma atitude que me faz lembrar a que todos os anos se passa com os incêndios florestais (quando acabam é como se nunca mais voltassem e chegasse o anúncio de umas verbas que nunca chegam e umas leis que de nada adiantam) ou a que alguns teóricos da Educação preconizam acerca da aprendizagem como processo de redescoberta a cada nova geração de alunos. Como se antes deles nada tivesse existido, nada se deva dar por já conhecido e tudo esteja em processo de recomeço.

Ao longo de duas semanas na sequência de três casos positivos nas minhas turmas, sendo que sou director de uma, foi possível constatar, a partir dos contactos estabelecidos com as autoridades de saúde (locais, mas também regionais, da região de Lisboa e Vale do Tejo), que existe uma situação de clara falta de meios humanos, uma evidente falta de liderança e rumo, assim como meios técnicos (leia-se informáticos) a funcionar com enormes falhas, com consequências graves quanto ao momento em que devem ser tomadas medidas, ao que deve ser feito e ao apoio a quem necessita de documentação para apresentar no local de trabalho.

Há gente a trabalhar até à exaustão, mas o sistema está mal montado ou então foi todo virado para a vacinação e tudo o resto ficou à deriva. As listas de laboratórios para fazer testes surgem desactualizadas, os contactos para fazer os rastreios chegam com dias de atraso, o que lhes tira grande parte da eficácia e os procedimentos entraram em evidente curto-circuito. Descrever os detalhes, em concreto, é demasiado penoso. Mas não poderia deixar claro que ao fim de ano e meio, há quem já tenha tido tempo para minorar a sua clamorosa incompetência e impreparação para funções demasiado importantes para serem atribuídas a raparigas e rapazes com o cartão certo.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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