DIÁRIO DE UM PROFESSOR

“Professor, isto conta prá nota?”

Por muito que um jogador se aplique nos treinos, é nos jogos a valer pontos e em especial nos mais importantes que existe um maior esforço para ter um bom desempenho.
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Já escrevi sobre uma das grandes falácias das “novas” abordagens sobre a avaliação das aprendizagens dos alunos que é a de se assumir que os alunos se interessam mais e apresentam melhor desempenho se as ferramentas de avaliação forem muito diversificadas e predominantemente “formativas”.

Não é isso que observo há anos e acreditem que há muitos anos se fala no tema, não sendo novidade a prática de ir informando os alunos dos seus progressos, através da realização de tarefas que vão muito além de “testes” ou de fichas para “avaliação sumativa”. Claro que podem dizer que é uma questão de “cultura da Escola” ou de hábitos e preconceitos com raízes familiares (porque os pais foram alunos no “modelo antigo” e ainda estão prisioneiros do seu “paradigma”), mas eu acho que não é apenas isso que está em causa.

Por muito que um jogador se aplique nos treinos, é nos jogos a valer pontos e em especial nos mais importantes que existe um maior esforço para ter um bom desempenho. É verdade que há quem resista pior à pressão, se enerve e não consiga demonstrar todo o seu valor nos dias de maior importância, mas se isso acontece no desporto, mesmo nos escalões mais jovens, o mais certo é os treinadores deixarem de fora da equipa principal quem apenas faz brilharetes nos tais treinos.

No caso da Educação, do Básico ao Secundário, embora a minha experiência seja há muito naquele, uma das perguntas sacramentais dos alunos quando se lhes apresenta uma tarefa que fuja mais à rotina das aulas “tradicionais” é “mas isto conta para a nota?”, seguindo-se rapidamente, quase antes de qualquer resposta, “e conta quanto?”. Eu bem posso responder que tudo conta para a nota, que a avaliação é um processo, que o envolvimento e empenho deles é mais importante, que me são dirigidos olhares duvidosos de quem acha que não é bem assim. Aliás, lá em casa, não é raro que a grande preocupação seja a da “nota” e não tanto se o “processo” decorreu melhor ou pior. E fazem-se médias e por muito que se apresentem “ponderações” específicas para cada “instrumento”, nem sempre isso é encarado como se fosse mesmo a sério.

A culpa é dos professores? Talvez, como quase tudo o que não corre de acordo com os pré-conceitos dos decisores políticos. Mas a realidade é o que é e ainda há dias o comprovei, ao pedir às minhas turmas de Português que fizessem o miolo da prova de aferição de 5.º ano. Não viram no cabeçalho qualquer referência a classificação/avaliação e ficaram logo de sobreaviso. E perguntaram… e eu respondi que não, não era para avaliação, mas apenas para eu ter uma ideia do que fariam caso lhes tivesse sido aplicada a dita cuja. Foi o que quiseram ouvir. Foi cá um despachar da coisa e nem se fala muito em perder tempo a ler tudo do princípio ao fim. Dias depois, perante o “teste” que sabiam “contar para a nota” com toda a certeza, a atitude foi completamente outra e até se fez um silêncio digno de uma casa de fados, mesmo antes do início da função.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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