DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Metamorfoses

Em regra, esse acesso leva a que se verifique uma célere metamorfose, caracterizada por uma selectiva amnésia e um súbito enfado ou mesmo nojo por todos aqueles que não seguiram esse caminho e se deixaram ficar pelas escolas.
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Admiro todas as pessoas que para além de uma actividade profissional que pode não satisfazer todas as suas aspirações, têm o ânimo e conseguem arranjar o tempo para fazer algo mais, para não abandonarem ocupações complementares que as ajudam a atingir um patamar superior de equilíbrio e felicidade pessoal. 

Por maioria de razão, admiro @s colegas que se dedicam a actividades extra-escolares e conseguem combiná-las com o seu desempenho profissional, mesmo quando isso faz franzir o sobrolho a quem pretende apresentar a docência como algo a exercer em regime de exclusividade e espírito de missionário mártir.

Compreendo, de igual modo, quem sente que a profissão docente foi amputada nas últimas duas décadas de muito do que a tornava atractiva e criativa, seja do ponto de vista intelectual como material, não esquecendo o emocional. Porque é isso que sinto, que preciso de algo para além de uma rotina diária da qual foi sugada parte significativa do entusiasmo e realização, deixando demasiados momentos de desânimo e acabrunhamento, em especial fora das aulas. E compreendo quem quer deixar uma profissão e um quotidiano em que já não se reconhece.

Mas já tenho mais dificuldade em admirar, mesmo que me esforce por compreender, quem, mal surge a oportunidade para passar a ser outra coisa, mesmo que à partida de forma transitória, rapidamente se procura livrar de qualquer identificação com o que já foi e adopta mesmo uma atitude de forte crítica daqueles que antes eram seus pares. 

Não estou a referir-me a quem, em especial na comunicação social, fala ou escreve sobre Educação de forma arrogante, lá porque deu aulas um par ou um punhado de anos em décadas passadas do outro século. Esses são casos há muito perdidos, que gostam de dar lições sobre o que nunca aprenderam. Refiro-me a quem foi professor@ e, a dado momento, teve a possibilidade de se meter numa lista qualquer, com cartão ou como “independente”, e aceder a um cargo de natureza política, a nível local e central.

Em regra, esse acesso leva a que se verifique uma célere metamorfose, caracterizada por uma selectiva amnésia e um súbito enfado ou mesmo nojo por todos aqueles que não seguiram esse caminho e se deixaram ficar pelas escolas. Os casos são mais acentuados à medida que se sente ter subido numa hierarquia de valores e afastado da posição inicial. Como se tivessem encontrado, por fim, o seu desígnio na vida e isso implicasse desprezar todos os sinais da anterior condição. E nem considerar a possibilidade de a ela regressarem, mesmo se no currículo, lá no site oficial do Parlamento, Câmara, Comissão, Diecção-Geral ou qualquer outra entidade, ainda permanece o embaraçoso ferrete curricular.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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