DIÁRIO DE UM PROFESSOR

“Professor, isso é tudo para fazer hoje?”

Sempre foi assim? Não, não me parece. Muito menos da forma generalizada que observo por estes tempos em que tudo parece poder ficar em espera, ser feito (ou não) à medida dos humores ou repetido as vezes que se acha necessário até acertar, nem que seja por falta de alternativas. 
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Se nas aulas comuns, entre a petizada, mesmo a mais crescidota, se tornou recorrente o “Posso ir à casa de banho? É que estou mesmo à rasquinha!” ou o “Posso ir lá fora comer? É que no intervalo não deu tempo”, não esquecendo o subsequente “Porque é que não posso ir?” se a resposta não é imediatamente positiva, nas aulas com qualquer coisa que pareça ser para avaliação, a primeira reacção de um número crescente de alunos é de dizer, revirando a(s) folha(s), que não conseguem terminar a tarefa solicitada, ainda antes de a verificarem devidamente.

Sempre foi assim? Não, não me parece. Muito menos da forma generalizada que observo por estes tempos em que tudo parece poder ficar em espera, ser feito (ou não) à medida dos humores ou repetido as vezes que se acha necessário até acertar, nem que seja por falta de alternativas. 

Se a gestão do tempo sempre foi algo que necessitou de uma aprendizagem mais ou menos alongada, a minha experiência como aluno e professor foi durante muito tempo a de, a dado momento quando se percebe que faltam 10/15/20 minutos para terminar a aula ou o tempo previsto para realizar a tarefa dada, surgirem as exclamações de espanto, desalento ou lamento, a demonstrar surpresa pelo tempo já passado e a expressar a necessidade de mais para cumprir o exigido.

Não me parece que fosse tão comum, logo a abrir as hostilidades e independentemente da extensão real do trabalho a desenvolver, ouvir-se um coro de declarações acerca da impossibilidade de o cumprir. Seja a aula de 45-50 ou 90 minutos e sejam quais foram os exercícios apresentados.

Há dias apresentei uma ficha formativa a uma turma com seis páginas, em que duas tinham textos e outras duas muitas linhas para fazerem um punhado de respostas, sendo o resto de resposta múltipla, associação ou completamento. Ainda não a tinha pousado em algumas mesas e já tinha levado com o “Tchhééé… como é que eu vou fazer isso? Não dá tempo!” 

O meu olhar de escassa compreensão e ainda menor paciência terminou as conversas por ali e pouco mais de meia hora mais tarde já quem assim se tinha indignado estava a dizer que tinha terminado e a perguntar se podia sair mais cedo da aula. Mas a primeira reacção tinha sido a da recusa, a da negação. E este tipo de atitude tem-se generalizado com imensa rapidez, mesmo antes da pandemia.

Sempre foi assim? Olhem que não, olhem que não.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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