DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Aferição Superlativa

Por isso, me causa sempre alguma impressão que “equipas” de gente recrutada especialmente para o efeito, com diversos níveis de verificação dos materiais e a responsabilidade de produzir apenas um par de “ferramentas” por ano, cometa erros muito básicos, como contemplar conteúdos que há muitos anos não fazem parte dos conteúdos da disciplina cujas aprendizagens se pretende avaliar ou “aferir”.
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A minha formação inicial é em História. Por razões do meu trajecto profissional, que incluiu algumas pausas na docência, e em virtude das peculiaridades da estrutura dos grupos de recrutamento, há cerca de três décadas que a maior parte do meu tempo tem sido a leccionar a disciplina de Língua Portuguesa ou Português, conforme os afectos dos decisores destas coisas.

Ao longo destes anos, tive dezenas de turmas, às quais apliquei centenas de “instrumentos de avaliação”, fosse ela formativa, sumativa ou meramente informativa. Se uma parte resultou de trabalho colaborativo com colegas (testes comuns e não só), do reaproveitamento de materiais alheios ou próprios ou da adaptação dos que são facultados em diversos suportes pelas editoras (dos cadernos de actividades à moda antiga às actuais plataformas com bancos de questões ou exercícios), a parte mais significativa foi de produção original, mesmo que com esta ou aquela inspiração mais directa. 

Isso resulta de achar que a mesma ficha de trabalho não se adapta necessariamente a todas as turmas e por maioria de razão que isso se aplica aos “testes”, que mesmo feitos na mesma altura de diferentes anos lectivos, podem corresponder a momentos diversos da progressão dos conteúdos e do desenvolvimento das aprendizagens dos alunos e dos grupos-turma. Há quem apresente algo tão comum e óbvio como se fosse uma enorme inovação pedagógica, envolvida em teorizações que reciclam o que se sabe há muitas décadas. Mas é apenas o trabalho normal de quem não se limita a renovar o número de fotocópias de ano para ano, de turma para turma.

Em muitos desses materiais cometi erros ou imprecisões, de gravidade variável, mas quase sempre menor e resultante de falhas na revisão do produto final: palavras gralhadas ou duplicadas sem necessidade, numerações repetidas ou com saltos, porque a dada altura retirei uma questão e não fiz todas as adaptações. Mas não me lembro de, mesmo quando trabalhei mais à pressa e sob pressão, inserir matérias ou conteúdos não leccionados e muito menos não previstos no programa da disciplina.

Por isso, me causa sempre alguma impressão que “equipas” de gente recrutada especialmente para o efeito, com diversos níveis de verificação dos materiais e a responsabilidade de produzir apenas um par de “ferramentas” por ano, cometa erros muito básicos, como contemplar conteúdos que há muitos anos não fazem parte dos conteúdos da disciplina cujas aprendizagens se pretende avaliar ou “aferir”. Porque revela qualquer coisa a oscilar entre a displicência e o desleixo.

Este ano voltou a acontecer, neste caso com a prova de aferição de Português do 5.º ano. Dir-me-ão que é um detalhe, numa única questão. Talvez possamos encarar as coisas assim. Só que, se fosse um professor comum, talvez não passasse por coisa menor, como se de ninguém fosse a responsabilidade. Como acontece quase sempre com estas situações. Já sei que errar é humano. Mas acertar também. 

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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