DIÁRIO DE UM PROFESSOR

O Futuro Passado

No último ano e meio muito lemos e ouvimos sobre a Escola Digital sob pressão dos efeitos da pandemia e do recurso ao ensino não-presencial. 
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No último ano e meio muito lemos e ouvimos sobre a Escola Digital sob pressão dos efeitos da pandemia e do recurso ao ensino não-presencial. Mas muito do que se disse e escreveu pouco teve de novidade, incluindo o que se apresentou como sendo ou “inovação” (nos métodos tecnológicos aplicados à Educação) ou “novidade” (a descoberta dos efeitos do digital no aumento das desigualdades). 

É o problema de quem chegou tarde a este tipo de debate (por questões de idade ou de falta de interesse anterior) e não teve a preocupação de se informar sobre o que já foi feito e ficou por fazer. Um problema que é mais grave em quem foi contemporâneo de iniciativas como o Projecto Minerva ou o Edutic nos anos 80 e 90 do século passado ou teve mesmo responsabilidades políticas no Ministério da Educação nesse período.

Para percebermos até que ponto parecemos estar sempre a redescobrir a pedra lascada, leia-se esta passagem retirada de uma revista Exame-Informática cujo tema de capa era “A Informática vai à Escola”.

“Os computadores nas escolas ficam-se pelos terminais dispersos: os restos do equipamento que sobraram de projectos anteriores: Dois ou três PC que são usados para trabalhos específicos (o jornal da escola ou acesso à Internet, por exemplo), mas nunca de uma forma integrada e que toque a todos por igual. 

(…) Mas, no que diz respeito à informática – onde não é assim tão fácil recorrer a «explicadores» – o que pode acontecer é mais perverso. É aquilo a que Roberto Carneiro (…) considera os «sem-abrigo digitais»: crianças que saem da escola sem domínio das novas tecnologias, essencial para sobreviverem no mercado de trabalho, independentemente da sua formação de base.

Na verdade, a situação pode ser ainda pior, uma vez que o acesso (ou não) ao computador é factor de diferenciação ao nível da igualdade de oportunidades. Ou seja, uma vez que não é a escola que fornece o conhecimento digital, será o nível socio-económico a estabelecer (ainda mais) a diferença – quem tem dinheiro, tem computador em casa ou põe o filho a estudar em colégios particulares onde a Informática seja tão natural como a Educação Física.”

Isto foi escrito em Outubro de 1996, mas poderia ter sido em Outubro de 2020.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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