DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Semestralidades

Volto ao tema porque no fim de semana foi dado destaque a uma notícia em que se afirmava que a organização por semestres é benéfica para “as aprendizagens” e que se pretende a sua generalização.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir

Volto ao tema porque no fim de semana foi dado destaque a uma notícia em que se afirmava que a organização por semestres é benéfica para “as aprendizagens” e que se pretende a sua generalização.

Permito-me duvidar, não apenas pela observação directa de algumas disciplinas que já funcionam em semestres pelos meus lados (caso de TIC e Cidadania), mas também por relatos de colegas que não sentem necessidade de aderir a manobras de propaganda e manipulação da opinião pública.

Claro que podemos estar apenas a falar da divisão do ano em semestres, com dois momentos (teóricos) reservados à avaliação formal e não com os três períodos tradicionais, mas é bom que se perceba que a organização em semestres tem tido outra aplicação, que é a salamização de disciplinas como a História, Geografia ou mesmo as Ciências e a Educação Visual.

Vou tentar ser claro (ou “assertivo”) acerca do tema, focando-me no que parece evidente em relação aos dois sentidos que podem associar-se à semestralização do currículo.

1)    Se a medida é mesmo tão positiva para as aprendizagens dos alunos, porque não têm proposto a aplicação da semestralização à Matemática e ao Português e a circunscrevem a disciplinas que já percebemos serem tidas como “menores” como a História e a Geografia, por exemplo? Podem cobrir o assunto com a retórica que entenderem, mas a semestralização é para as disciplinas que têm sido assumidas como de segunda ordem e não prioritárias.

2)    Alguém acredita que existe verdadeira continuidade no trabalho desenvolvido numa disciplina que é interrompida em inícios de Fevereiro e retomada apenas em Setembro (ou mesmo só um ano depois)? Porque uma coisa é existirem “disciplinas semestrais”, que esgotam o seu conteúdo num semestre ou em que se sucedem em semestres contíguos, como no Ensino Superior, e outra coisa muito diferente é interromper a sua leccionação durante seis ou mais meses.

3)    No caso da organização em semestres do processo de avaliação das aprendizagens, alegando-se que assim existem só dois momentos formais e isso até reduz a burocracia associada às tarefas de final de período, a verdade é um pouco diferente porque se vulgarizou a existência de outros dois momentos de avaliação – chamem-lhe monitorização ou o que bem entenderem – a meio dos semestres, com toda uma parafernália de documentos destinados ao registo e feedback da progressão das aprendizagens. E nesse caso, duvido seriamente do impacto nas “aprendizagens” dos alunos, como é alegado.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.