DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Traumas

Tenho com alguma frequência a sensação que certas perspectivas sobre a Educação nascem de experiências negativas ou mesmo de traumas pessoais vividos na primeira pessoa por quem apresenta a Escola de hoje como se fosse igual àquela que viveu enquanto criança ou jovem.
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Tenho com alguma frequência a sensação que certas perspectivas sobre a Educação nascem de experiências negativas ou mesmo de traumas pessoais vividos na primeira pessoa por quem apresenta a Escola de hoje como se fosse igual àquela que viveu enquanto criança ou jovem.

Uma Escola com uma matriz autoritária, rígida, disciplinadora, muito centrada na transmissão de um corpo de conhecimentos tido como essencial para o bom cidadão do Estado Novo. E eu compreendo isso. Ou melhor, compreendo menos isso quando depois leio testemunhos do quanto foram marcantes (no bom sentido) os tempos da “escola primária” ou até “do Liceu”. Mas tudo pode coexistir, o que foi bem e o que foi mau. É normal e ainda hoje é assim. Mesmo se a Escola mudou muito. 

Se há traços reconhecíveis na Escola como instituição, o mesmo se passa com o Hospital ou o Tribunal. Mudaram muito em procedimentos, mesmo em equipamentos, mas uma lógica estrutural que transmite uma sensação de continuidade e identidade que facilita o seu reconhecimento. São instituições fundadoras do Estado Moderno na sua dimensão social contemporânea. Mas o seu quotidiano mudou mais do que pode parecer a quem apenas olha para as salas de aula, horários ou turmas e acha que tudo está como sempre esteve. Não é verdade e custa-me que, em várias circunstâncias, se justifiquem medidas com base no que me parecem ser fantasmas de escolas passadas.

Eu compreendo o quanto podem ser negativas certas figuras ou situações associadas aos tempos de escola, até pelas horas que lá todos passámos e muitos ainda passamos. Mas não deve ser isso a determinar de forma muito evidente certas posturas ideológicas ou mesmo políticas concretas. Eu nunca deixaria que a má memória de uma professora de História que tive no Unificado me condicionasse decisões futuras. Ou a eventual injustiça de uma outra, em tempos ainda mais precoces, me fizesse generalizar essa atitude a quase todo o corpo docente.

Só que, infelizmente, parece-me que muita gente com poder, mandato após mandato, na área da Educação, chega ao cargo (ou à posição de influenciador) com o objectivo e a quase necessidade irreprimível de ajustar contas com o seu passado. Não percebendo que o que está em causa é o futuro das novas gerações. Que não devem pagar por pecados que há muito prescreveram.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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