DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Cooptação

É uma estratégia razoavelmente inteligente e apela a algo quase tão eficaz quanto o medo, com a vantagem de dar menos nas vistas.
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As estratégias dos vários níveis e tipos de poder não diferem muito quando pretendem anular alguma dissonância mais incómoda. A mais simplista e menos subtil é a da intimidação pura e dura; a da tentativa de calar pela força, pela ameaça, pela censura, em resumo, o silêncio pelo medo.

Mas há formas menos básicas de conseguir algo semelhante, apostando em outro tipo de sentimentos ou traços de personalidade de quem é visado. A aposta na vaidade, por via do elogio é uma delas. Mais eficaz ainda se, à exaltação da validade das ideias que se querem eliminar, vier associado um convite para as expor e participar nas soluções em preparação para um dado problema. 

Trata-se, neste caso, da cooptação para “participar”, para “fazer parte”, para “ajudar a construir a solução” em grupos onde está garantida uma larga maioria de elementos com a posição dominante, que se pretende que seja a apresentada como “consensual” ou resultante de um “compromisso entre diferentes vozes”. E quem aceitou ser cooptado fica na situação ingrata de assinar algo com que, em larga escala, garantia não estar de acordo, ou assumir uma ruptura e perder “outras oportunidades” de “fazer parte” e sentir que “a sua voz foi ouvida”. 

É uma estratégia razoavelmente inteligente e apela a algo quase tão eficaz quanto o medo, com a vantagem de dar menos nas vistas. Apesar de pensar que com a idade as pessoas ficariam menos permeáveis a esta abordagem, quiçá mais perspicazes, tenho verificado que não é assim e que a vaidade é transversal a todas as faixas etárias. Se os mais novos até podem ser cativados devido a uma eventual ingenuidade, os menos novos deixam-se muitas vezes ir na crença de que “desta vez é que é” (leia-se, é desta que consigo alguma coisa, que o tempo encurta).

O segredo da resistência a este tipo de investida está em parecer que se acredita em pelo menos parte dos elogios e até aceitar a participação em algumas iniciativas e, depois, mesmo que com o risco de passarem à primeira estratégia de silenciamento, aproveitar a oportunidade para apresentar as ideias originais, sem compromissos. E não recear rupturas e o desaparecimento de amizades que nunca o foram.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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