DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Círculo Formativo

Mas eu ainda estou fascinado com o anterior “ciclo”, aquele que ainda está por aí com assinalável pujança e que se destinava a explicar aos professores como se aplicavam dois decretos-lei e, em particular, como se “operacionalizava o multinível” e os princípios da “educação inclusiva”.
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Consta que entrámos num “novo ciclo” em matéria de formação contínua. Estamos em época de transição digital, pelo que é indispensável “capacitar os docentes” para “esta nova realidade do digital”, sendo que por “nova” se entende uma transição que já deveria estar adulta. E é necessária muita “formação” em “ferramentas” que, diz-nos a experiência recente e menos recente, cada vez ficam mais depressa obsoletas.

Mas eu ainda estou fascinado com o anterior “ciclo”, aquele que ainda está por aí com assinalável pujança e que se destinava a explicar aos professores como se aplicavam dois decretos-lei e, em particular, como se “operacionalizava o multinível” e os princípios da “educação inclusiva”.

Ao acaso, encontro uma formação sobre “Desafios da Educação Inclusiva: Intervenção Multinível de Resposta à Diversidade”. Custa 60 euros por 15 horas de formação e começa os seus objectivos “específicos” da seguinte forma: “As abordagens multinível (AI) constituem-se como uma alternativa que considera a complexidade, multiplicidade e interconetividade entre as dimensões da aprendizagem e do comportamento e oferece um modelo integrado de medidas de suporte à aprendizagem, suportando-se em processos de tomada de decisão baseados em dados concretos.”

Como estão longe de ser raras, encontro outra que apresenta “razões justificativas”, dizendo-nos que “estamos perante uma mudança de paradigma na abordagem às dificuldades de aprendizagem que visa responder às necessidades de todos e cada um dos alunos, que perceciona a sala de aula com alunos muito dissemelhantes, o que implica uma visão global e holística, que tem de se centrar naquilo que temos e no que podemos canalizar para atender à diversidade dos alunos, com necessidades tão díspares, com um determinado background, culturas e perfis distintos”.

E eu não posso deixar de sorrir, porque li isto uma e outra vez, aqui, ali e acolá, em cascata a partir de quem esteve na origem de diplomas legislativos que parecem voluntariamente confusos ou ambíguos, criando a necessidade destas formações, quantas vezes asseguradas exactamente por quem cuidou que a ambiguidade gerasse tal necessidade de “aclaramentos” formativos, se possível bem pagos por quem precisa de perceber aquilo que deveria ser claro desde a origem. Porque estes “círculos”, mais do que ciclos, são há muito a regra em boa parte da formação contínua de professores. 

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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