DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Boa Vontade

A “boa vontade” é aquilo a que os poderes que temos recorrem como forma de sensibilizar quem ache que aquilo de ser um “profissional crítico e reflexivo” é para levar a sério.
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Não é a primeira vez que ouço ou leio críticas a pessoas ou grupos que revelem alguma resistência às prioridades dos poderes centrais ou locais que culminam na denúncia da “má vontade” de quem não alinha ou na necessidade de ter “boa vontade” para que os “obstáculos” se possam ultrapassar.

A cada nova “reformista” na Educação ou a cada nova vaga de “projectos” a nível de “unidade orgânica”, por muito que se fale em “trabalho colaborativo e cooperativo”, a verdade é que quase sempre se encara como indesejável qualquer tipo de reservas ou dúvidas e se lançam juízos de carácter sobre quem as protagoniza. Quem não começa logo aos saltinhos de alegria e ousa questionar é porque tem “má vontade”. E recomenda-se “boa vontade” para superar as dificuldades, como se fosse uma espécie de atributo indispensável para se ser bom docente.

As escolas parecem ser os pontos focais da sociedade em matéria de “boa vontade” (admito, nos hospitais, também acontece), porque no resto da sociedade ela tem uma aplicação bastante reduzida. Tentem lá comprar um quilo de bacalhau ou meia dúzia de melões e verão que sairão do supermercado de mãos a abanar: Não tenham crédito no cartão que logo vêem o que vos acontece.

Tentem lá falar em boa vontade com o fisco (a menos que sejam “grandes devedores” e nesse caso até vos estendem alcatifa vermelha e servem cházinho e bolinhos) ou com a edp, galp, altice, vodafone, companhia das águas, etc e confirmem lá se ao fim de 2-3 meses não ficam sem os serviços em dívida. 

A “boa vontade” é aquilo a que os poderes que temos recorrem como forma de sensibilizar quem ache que aquilo de ser um “profissional crítico e reflexivo” é para levar a sério. E funciona quase sempre de cima para baixo e vem com ameaça na ponta. Ou fazes assim, ou… és mau profissional, porque tens “má vontade”. Em regra, pede-se “boa vontade” quando se quer que alguém faça o que não está nas suas atribuições legais ou que implica o dispêndio do seu tempo para além daquele que é pago. A “boa vontade” vem a par do “amor à camisola”, do “espírito de equipa” e é muito usado por quem não precisa de nada disso, pois já tem as condições necessárias para fazer o que faz – ou mandar o que manda – sem ser preciso esse espírito suplementar de missionário compreensivo para com quem está a colocar lenha debaixo do caldeirão onde só alguns se escaldam.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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