DIÁRIO DE UM PROFESSOR

O que é Essencial?

Desculpem-me a anacronia se acho tão ou mesmo mais (heresia!) “essencial” que um aluno saiba conjugar os verbos nos tempos mais simples do que clicar em símbolos num ecrã.
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Já expliquei várias vezes aos meus alunos que a minha grande preocupação é que eles se tornem adultos que, para além de boas pessoas (claro!) e cidadãos activos (obviamente!), tenham as competências básicas para serem funcionais em sociedade e saberem como lidar com situações práticas do quotidiano, sem aqueles embaraços a que assisto regularmente sempre que é possível comunicar ou entender algo que vá além das instruções de uso de uma nova app ou de montagem de uma prateleira do IKEA.

Escrito assim, parece um excerto de um texto de apoio ao “Perfil” ou de “operacionalização” das suas medidas, mas não podia estar mais longe. Porque aquilo que me preocupa cada vez mais, ao ponto de quase ficar indiferente ao resto, é até que ponto estes sucessivos movimentos de combate aos conteúdos programáticos com um mínimo de complexidade estão a conseguir transformar a Educação numa espécie de território onde o importante é apresentar “projectos”, delinear “planos”, estabelecer cronogramas, “elencar metas” e definir “ferramentas de monitorização”. Sendo que há pessoas que, de modo forçado, por convicção ou mero oportunismo em busca do selo de “Excelência”, cada vez usam mais o seu tempo nesta renovada modalidade de representação da realidade do que a desenvolver efectivas competências nos alunos.

Desde logo, a de saberem comunicar, de se fazerem entender e de entenderem os outros. De falarem e escreverem de um modo que não transfira a compreensão do seu discurso para o campo da quase pura adivinhação. “O professor sabe o que eu queria dizer” ou “O professor sabe que eu sei isso” são frases muito comuns e da minha parte levam sempre com algo parecido com “Sim, até posso saber, mas és tu que tens de me demonstrar que sabes!”. Há anos e anos que repito a mesma resposta à mesma pergunta, como qualquer aluno meu poderá confirmar. Sempre que me perguntam “Professor, posso fazer uma pergunta?” eu respondo “Sim e acabaste de a fazer”

Desculpem-me a anacronia se acho tão ou mesmo mais (heresia!) “essencial” que um aluno saiba conjugar os verbos nos tempos mais simples do que clicar em símbolos num ecrã. Que saiba distinguir presente de passado. Que compreenda a causalidade entre factos e situações. Antes de saber que no google se acha tudo e que o que está a dar é a “gamificação” da Educação. O que é giro é giro, mas não sei se é essencial. 

Quando se fala em “transição digital” parece-me evidente que se está a “transitar” para o digital a partir de algo. Ora… quer-me parecer que há quem ande a ocupar quase todo o seu tempo e esforço no processo de “transição” e muito pouco a dar aos alunos as bases para terem um ponto de partida sólido, onde possam basear qualquer novo “patamar” das suas aprendizagens. Até porque o digital é apenas um meio, não a aprendizagem em si.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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