DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Está Quase a Chegar

Anunciou-se com estrondo e promessas de muitos milhões o plano central para recuperação das aprendizagens que consta terem sido perdidas em paradeiro incerto durante o confinamento.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir

Anunciou-se com estrondo e promessas de muitos milhões o plano central para recuperação das aprendizagens que consta terem sido perdidas em paradeiro incerto durante o confinamento. Já não sei quantas vezes falei ou escrevi sobre o tema, que passa por ser muito sério, mas que em grande parte é uma ficção conveniente para justificar medidas como a revisão de alguns conteúdos disciplinares e a criação de grupos de trabalho com gente muito selecta e especializada na matéria, mesmo que tenham aterrado no debate sobre a Educação à boleia da pandemia. 

Sobre o diagnóstico feito pelo IAVE não tenho muito a acrescentar ao que já escrevi, sobre as falhas na amostra e na metodologia usada na concepção das provas aplicadas. Mas eu não sou autoridade na matéria, limitando-me a observar a realidade no terreno. E essa observação, que os especialistas formados em ambientes cosmopolitas rapidamente qualificam como paroquial, diz-me que aprendizagens perdidas ou não realizadas existem desde há muito, sem pandemias a justificá-las. E sem uma verdadeira preocupação em apurar as razões, desde que no fim os alunos transitem e se apure um acréscimo nos níveis de “sucesso”.

A pandemia apenas trouxe uma justificação adicional para se aprofundarem as medidas tendentes a uma simplificação dos programas que se apresenta como incontornável, escondendo que a redução dos conteúdos só é necessária porque a gestão dos tempos lectivos tem sido no sentido da sua amputação nas disciplinas apresentadas como “enciclopédicas”.

Não vale a pensa andarmos a iludir-nos: os verdadeiros problemas durante o confinamento tiveram a ver com a fragilidade das condições de vida de muitas famílias, com a precariedade dos seus rendimentos, com a escassez do seu capital cultural, com a sua evidente falta de literacia digital para apoiar os alunos. Uma eventual perda de aprendizagens é apenas a consequência de tudo isso. Agir sobre o sintoma, não elimina a doença, apenas se alivia de forma passageira aquele.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.