DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Imaginação

A História é fértil em exemplos da censura sobre quem ousou imaginar para além dos limites tidos como razoáveis em dado contexto e momento histórico.
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Há quem fale muito na necessidade de estimular a criatividade e a imaginação das crianças e jovens, criticando o modo como alegadamente a “Escola” formata os alunos de acordo com um padrão médio desejável, em termos de atitudes, comportamentos e mesmo aptidões e conhecimentos. 

Sobre esta última parte e o debate pouco fértil acerca do essencial papel socializador da organização escolar não vale a pena repetir argumentos já gastos. Acho mais interessante discutir do que falamos quando falamos em “criatividade” ou “imaginação” e como se pode avaliar esse tipo de capacidades (ou competências ou o que lhe quisermos chamar).

Porque a “criatividade” é encarada muitas vezes de modo errado como algo que brota dos indivíduos de forma espontânea e quase sem que seja necessário qualquer preparação, aptidões ou conhecimentos prévios. Como se pudessem ser replicados leonardos ou picassos por aí, sem necessidade de saber as regras básicas do desenho, ou joyces e saramagos sem antes terem aprendido a usar a sua língua materna com assinalável mestria. Há quem não entenda o quanto a “criatividade” dá trabalho e tome por tal apenas a repetição do que já foi feito por tanta outra gente, com a mesma idade.

Algo similar acontece com a “imaginação” que talvez ainda seja mais difícil definir, por depender tanto de cada indivíduo e das suas especificidades. O que pode ser “imaginação” para uma pessoa, pode não o ser para outra. O que para mim pode ser o exercício imaginativo de um aluno, que recombina de forma original aquilo que conhece, acrescentando-lhe desenvolvimentos, pode ser um puro disparate para outra pessoa. Porque estão aqui envolvidas questões de gosto e sensibilidade. Já assisti a alguém qualificar como “porcaria sem sentido” algo que me deliciou. 

Porque há quem ache que, para lá de imaginação, deve ser qualificada ou avaliada a forma como se expressa. Ora, haverá “boa” e “má” imaginação? E quem está em condições e tem a autoridade para o fazer? E deve a expressão da imaginação “fazer sentido”? Fará isso sentido? Estas são questões demasiado complexas para se resolverem de forma simplista até porque, infelizmente, não é raro que a exaltação da efabulação venha presa a concepções muito limitativas do que é tido como “aceitável”. 

A História é fértil em exemplos da censura sobre quem ousou imaginar para além dos limites tidos como razoáveis em dado contexto e momento histórico. Será que, por exemplo, a imaginação de Júlio Verne foi encarada do mesmo modo ao longo dos tempos, em especial quando algumas das suas efabulações mais fantásticas se tornaram realizáveis? Até que ponto autores que eu posso considerar excepcionalmente imaginativos (como Edgar Rice Burroughs e o seu mundo de Pellucidar) não foram menorizados e remetidos para o nicho da literatura escapista?

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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