DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Deformações

Agora, aprende-se a teorizar sobre o ensino, mas “ensinar”, propriamente, é complicado, porque não se sabe o quê.
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Devido a um compromisso em forma de debate, andei a actualizar-me sobre o currículo dos cursos de formação inicial de professores. Andei pelos sites das principais universidades portuguesas a percorrer planos de estudos em licenciaturas e mestrados em Educação e/ou no Ensino de [preencher a disciplina adequada].

Não fiquei aterrado, porque faço este tipo de exercício regularmente desde a “bolonhização” de parte do Ensino Superior, para me manter informado. Apenas continuei aterrado com a forma como se passou a conceber a formação para a docência como uma espécie de nicho académico, ficando os alunos destes cursos enclausurados numa espécie de “bolha” profissional, quase completamente separada da área científica relacionada com aquela que irão leccionar, enquanto professores, aos alunos do Ensino Básico e Secundário.

Em tempos que já lá vão, as pessoas seguiam estudos superiores durante (em regra) quatro anos numa área disciplinar, na qual obtinham uma licenciatura. Caso optassem pela docência, faziam a profissionalização, em diferentes regimes (integrado, em exercício ou em serviço, por exemplo), ao longo da qual tinham disciplinas na área da Didáctica, da Pedagogia, da Psicologia Educacional ou da Sociologia da Educação.

Agora é tudo ao contrário, mas em mini-formato. Em três anos, na generalidade dos cursos de que consultei os planos de estudos, faz-se uma espécie de introdução às Ciências Sociais e às Ciências da Educação (de um modo muito enviesado, só de olhar para alguns programas de disciplinas) e depois faz-se uma especialização no ensino de [preencher a disciplina adequada]. 

Só que a “especialização”, em modo de mestrado, é de uma enorme fragilidade em termos de conteúdos. Aquilo, mesmo em instituições consideradas “de referência”, é de uma enorme pobreza e está pouco acima das chamadas “aprendizagens essenciais” para o Ensino Básico. No caso do ensino da História, que conheço melhor, é tudo muito superficial, porque o “enfoque” é na “comunicação” e na “metodologia”, sendo que fica por demonstrar como se comunica algo que se desconhece e que método de ensino resiste à ausência do desconhecimento do que se vai ensinar.

O pior é que quem tira este tipo de cursos fica completamente encerrado num casulo em que as saídas profissionais são escassas e, por isso, muito vulneráveis à precariedade e à proletarização. Não admira, pois, que os candidatos sejam cada vez menos e com médias mais baixas. Vai para estes cursos quem não consegue entrar em outros mais exigentes e com saídas profissionais mais “abertas”. Antes, aprendia-se algo sobre uma área disciplinar e depois optava-se (ou não) por ensiná-la. Agora, aprende-se a teorizar sobre o ensino, mas “ensinar”, propriamente, é complicado, porque não se sabe o quê.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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