DIÁRIO DE UM PROFESSOR

“Mas eu sou um bom menino”

A história, ou mais apropriadamente estórinha, foi-me contada por colega que lecciona o Secundário, com alunos já bem entrados na adolescência, ali a dois passos de jovens adultos.
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A história, ou mais apropriadamente estórinha, foi-me contada por colega que lecciona o Secundário, com alunos já bem entrados na adolescência, ali a dois passos de jovens adultos. E é sintomática da infantilização a que chegámos em alguns “ambientes de aprendizagem” que fazem a delícia dos defensores de algumas “novas” pedagogias.

A tarefa, apresentada para ser feita ao longo de alguns dias, consistia na resposta a três ou quatro questões sobre um tema abordado numa aula. O aluno, findo o prazo, entrega escasso “produto”, quase todo desadequado ao pretendido, seja na forma, seja especialmente no conteúdo. Produto que nos nossos tempos não se pode dizer de ânimo leve que estava todo errado, que isso pode ser traumatizante, pelo que o feedback é mais na base do “não é que esteja mal, poderia era estar melhor, por isso tenta fazer de novo, tomando atenção às indicações”.

Perante os reparos que lhe foram feitos, o jovem remoeu a situação e resistiu à proposta de reformulação do seu trabalho, apresentando como argumento que achou decisivo, com ar convencido e quase convincente, a afirmação “ó setôra, mas eu sou um bom menino”. Argumento forte, certamente, mas não sei se apropriado a aluno pré-universitário. Claro que à colega ficaria mal dizer o que eu penso e arrisco escrever: este argumento seria válido num candidato a acólito ou a escuteiro, mas só compreensível em ambiente escolar num contexto em que a avaliação dos conhecimentos se tornou um quase pecado capital e o ser “um bom menino” terá permitido um trajecto de quase uma dúzia de anos de sucesso no nosso sistema de ensino.

Haverá quem ache que chega “ser bom menino” para se ter boa classificação num trabalho escolar; eu mesmo, confesso que acho “querida” a expressão que saiu a rapaz matulão perante a evidente incompreensão da professora. Mas há qualquer coisa de profundamente errado, desculpem, errado não se diz, direi antes desadequado em tudo isto. Talvez seja eu que estou a ver mal as coisas, a não encarar estas problemáticas pela perspectiva certa. Mas, não sou capaz de aceitar sem protesto todo o processo de infantilização que se instalou, mansamente, na nossa “educação de sucesso”.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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