DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Ainda o Recrutamento

Ontem, muito ficou por dizer acerca do que acho destas tentativas de alterar as regras do concurso de recrutamento de professores, porque o tema é daqueles que se tornou recorrente e sazonal.
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Ontem, muito ficou por dizer acerca do que acho destas tentativas de alterar as regras do concurso de recrutamento de professores, porque o tema é daqueles que se tornou recorrente e sazonal. Sempre apresentado como sendo no sentido de recrutar “os melhores professores” e no “interesse dos alunos”. As minhas dúvidas acerca da seriedade destas intenções são imensas e não derivam de qualquer teoria da conspiração, mas das conversas que ouvi a gente que já teve o poder de decisão ou almejava tê-lo, bem como da observação directa da realidade a cores.

Há vários argumentos a favor de uma alegada “flexibilidade” (leia-se “maior desregulação”) das regras de um dos poucos concursos públicos que ainda apresenta alguma transparência.  Durante algum tempo, foi popular a crítica à “centralização” desse mesmo concurso. Porque um concurso único é “estalinista” foi a variante mais divertida que li ou ouvi. Embora tenhamos um país em forma de pequeno rectângulo, com uma população inferior à de várias cidades deste mundo e de os meios digitais terem tornado muito mais fácil gerir um concurso deste tipo, há quem ainda se agarre a esta justificação, em nome da maior adequação de uma selecção local dos candidatos. 

Mas o argumento que ganhou mais força na última década foi a da necessidade de seleccionar os “melhores professores”, considerando-se que o método tradicional baseado na média do curso da formação inicial e da profissionalização não é o que permite uma seriação mais justa dos candidatos.

E eu espanto-me, mas não muito, porque estou já calejado em matéria de hipocrisias. Porque, é bom que se note, os actuais candidatos à carreira docente fazem uma formação específica para a docência, constituída por dois ciclos de estudos, durante os quais são avaliados por dezenas de (formadores de) professores que, quero acreditar, serão pessoas com um mínimo de competência para, ao fim de cinco anos, a média das suas classificações não ser algo que se deite fora, em favor da opinião de um qualquer director, formado nem sempre sabemos bem como.

É, no mínimo, caricato que governantes afirmem que os cursos de formação de professores lançam cá para fora candidatos à carreira, com profissionalização e tudo, cuja competência deve ser aferida por alguém que nem sequer dá aulas e, não raro, já mal se lembra da sua própria formação, apenas estando habituado a ouvir as prédicas de um qualquer director-geral ou secretário de Estado em visita ou webinar de doutrinação.

A sério? Se acham que os cursos de formação de professores, certificados e tudo, não classificam adequadamente os seus alunos, talvez fosse melhor reverem o que se faz nesses cursos, certo? Ou reformular como os docentes se profissionalizam. Agora fazer concursos à medida, é capaz de não ser a solução mais “justa” e muito menos argumentar que é “no interesse dos alunos”.
 

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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