DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Recrutamento

O rescaldo da publicação anual dos rankings traz sempre um conjunto de leituras que, felizmente, começam a ir para além do debate pouco fértil acerca da sua bondade/maldade ou dos seus limites como representação da realidade.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir

O rescaldo da publicação anual dos rankings traz sempre um conjunto de leituras que, felizmente, começam a ir para além do debate pouco fértil acerca da sua bondade/maldade ou dos seus limites como representação da realidade. Mas, infelizmente, ainda está quase tudo muito preso a preconceitos ideológicos ou à urgência em pressionar agendas políticas a qualquer pretexto.

Um velho campo de batalha é o do concurso de recrutamento de professores, que gente com poder ao longo dos anos no campo da decisão política e da comunicação mediática tem apresentado como inadequado por ser desadequado, não responder às necessidades específicas das escolas e necessitar de ser “flexibilizado”. 

Nos últimos quinze anos observámos, por isso, a diversas tentativas, várias conseguidas, para desregular o que antes era um concurso público, globalmente claro e transparente, mesmo se a definição das vagas era algo mais discutível. Os candidatos eram seriados pela sua média de curso/profissionalização, a que acrescia o tempo de serviço prestado. E eram colocados por ordem das prioridades que apresentavam, ao nível das escolas. Claro que, depois, havia forma de contornar certas colocações menos agradáveis, por quem apenas tinha querido entrar para o “quadro” e depois usava os recursos previstos na lei para “escapar”: destacamentos, requisições e outras formas de mobilidade, muitas vezes criticadas, mas raramente moralizadas, porque convinham a muitos “amigos”. Não vale aprofundar agora o tema, até porque a maioria dos leitores conhece o tema.

Mas nos últimos quinze anos, retomando o fio à meada, temos assistido a uma desregulação dos concursos, com uma série de vias paralelas de vinculação, muitas delas dotadas de notável opacidade. O mesmo com processos de recondução de colegas contratados ou a renovação da colocação de “técnicos especializados”, com o pretexto de não existirem grupos de recrutamento para certas disciplinas, criadas em ofertas de tipo profissionalizante. E quantas vezes lemos ou ouvimos directores a lamentar não poderem recrutar os “seus” professores, para o “seu” projecto.

Nos chamados TEIP [Territórios Educativos de Intervenção Prioritária] isso já é uma relativa realidade, mas parece que vai existir um novo empurrão no sentido de maior desregulação dos concursos e do recrutamento dos professores. O secretário de Estado João Costa declarou ao Público na passada 6ª feira que “há um problema com o ‘modelo de recrutamento de professores’ e é preciso mudá-lo”, acrescentando que há professores que “têm uma vocação imensa para trabalhar com crianças mais desfavorecidas” e que o “sistema” não pode ser “cego a isso”.

Parece uma evidência de bom senso, até chegarmos à parte em que seja necessário definir uma métrica para avaliar tal “vocação”. Ou, em alternativa, a determinar quem define quem alguém tem essa “vocação” e quem não a tem. Vivendo em Portugal há 56 anos e conhecendo a realidade do “factor c” (de “conexão”, “contacto”, “conhecimento”), resta-me piscar o olho, como num velho sketch dos Monty Python e acrescentar “say no more, say no more”.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.