DIÁRIO DE UM PROFESSOR

“Assim, Sempre Ficam Entretidos”

Só que a “liberdade” que permito é observada à distância, pois é mais importante para mim a forma como os alunos utilizam os equipamentos e aquilo que procuram do que saberem rapidamente aplicar animações e transições a um Powerpoint.
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Qualquer aluno meu dos últimos vinte ou mais anos sabe que tenho o hábito de levar as turmas com alguma regularidade, desde que exista e esteja disponível, para a “sala dos computadores”, designação comum para a sala de Informática, sala Multimédia, sala T.I.C. ou qualquer outra nomenclatura oficial usada.

Gosto de fazer isso em especial com os miúdos mais novos (5.º ano, no meu caso) e não necessariamente com um “plano” ou uma “actividade” muito organizada em mente. Em especial nos primeiros tempos (finais dos anos 90 do outro século e anos iniciais deste), em que o uso do computador era menos habitual e nem existia a maioria dos gadgets tecnológicos agora disponíveis, gostava de os “atirar à piscina” e ver o que conseguiam fazer com um mínimo de orientação. Claro que com indicações mínimas, mas muito claras, quanto a regras de conduta, segurança e manutenção do material.

Em boa verdade, ainda hoje gosto de usar este método, embora a familiaridade seja muito diferente do que foi. Agora o problema é quase o inverso, pois os equipamentos disponíveis na generalidade das escolas (os heróicos sobreviventes desktops da HP) já parecem estranhos aos alunos, não pela novidade, mas pela antiguidade. Digamos que o método da “imersão” precede qualquer preocupação na criação de “produtos”. Não me choca que procurem uma música, um dos jogos que escapem aos filtros ministeriais ou qualquer outro recurso de lazer.

Sei que esta não é uma atitude muito bem vista por quem acha que tudo deve ser feito muito a sério e acha que eu estou a ser demasiado permissivo. Logo eu, que em outros ambientes tenho fama de adepto de metodologias mais directivas e menos “inovadoras”. Só que a “liberdade” que permito é observada à distância, pois é mais importante para mim a forma como os alunos utilizam os equipamentos e aquilo que procuram do que saberem rapidamente aplicar animações e transições a um powerpoint.

Claro que já ouvi de tudo um pouco, tendo-me ficado na memória, já lá vão uns bons anos, alguém a dizer “eles fazem o que querem dele”, não sabendo que eu tenho um ouvido que faria inveja aos satélites da Agência de Segurança Nacional americana. Mais recentemente – e sei que não foi com má intenção, mas apenas com curteza de vistas – ouvi um “lá vão eles para os computadores… sempre ficam entretidos”. A máscara permitiu manter o meu sorriso em privado. Porque há coisas que não vale a pena explicar seja o que for a quem desistiu de mudar.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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