DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Clubites

O adversário tornou-se inimigo, a galhofa e zombaria transformaram-se em algo menos saudável, a alegria da vitória deu o palco principal ao gosto pela humilhação dos derrotados do momento.
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Nos primeiros anos de professor, assim como nos tempos de aluno, uma pergunta sacramental que era feita pelos alunos rapazes aos professores era “o setor é de que clube?” e havia a resposta, dada com naturalidade, acerca da simpatia clubística de cada um. Claro que depois de cada jornada, esse conhecimento era usado pelas diferentes claques em presença para todo o tipo de brincadeiras com os infelizes da fornada, mas tudo sem grande maldade, excepto um ou outro gozo mais refinado. Era um tema de conversa que ajudava a estabelecer cumplicidades e alguma familiaridade.

Estranhamente, ou nem por isso, reparei que com o passar do tempo me fui limitando na resposta a essa questão, evitando revelar o clube de que sou adepto. Quando me apercebi disso, tentei compreender a razão (ou razões) dessa minha retracção, que nem sequer se relaciona com questões de especial privacidade. E não foi fácil entender o porquê, nem porque passei mesmo a responder sistematicamente com evasivas, quando não tenho grandes problemas em ilustrar certas situações relativas a conteúdos programáticos (ou a “sermões”, quando há derivas menos agradáveis nos comportamentos) com exemplos tirados das minhas memórias ou do meu quotidiano.

Quando, afinal, achei qual foi a explicação principal, foi fácil verificar que a dificuldade resultava de uma atitude progressiva de desagrado com a forma exacerbada e descontrolada como as paixões clubísticas passaram a ser vividas, perdendo naturalidade e alegria para se tornarem, em tantos casos, escape para as frustrações individuais e desculpa para a descarga de instintos de desforço e mesmo “vingança”. Que se nota menos na miudagem, mas que, cada vez mais cedo, são mimetizadas quando são vistas nos adultos próximos e tidas como naturais.

O adversário tornou-se inimigo, a galhofa e zombaria transformaram-se em algo menos saudável, a alegria da vitória deu o palco principal ao gosto pela humilhação dos derrotados do momento. Deixou de me apetecer entrar nesse tipo de jogo paralelo, ao ponto de deixar praticamente de discutir futebol, até na sala de professores, entre adultos. Porque os “crescidos” são os piores, com muito mais lastro por descarregar.

Esta manhã, inevitavelmente, choverão de novo perguntas e eu, mais uma vez, farei uma má imitação do sorriso ambíguo que fez boa parte da fama do mais conhecido Leonardo.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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