DIÁRIO DE UM PROFESSOR

A Escola-Radar

A terminar a passada semana, foi possível ler, a partir de uma peça da Lusa, em vários canais noticiosos que o Conselho Nacional de Educação estima em 20.000 o número de alunos que “caíram fora do radar das escolas”.
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A terminar a passada semana, foi possível ler, a partir de uma peça da Lusa, em vários canais noticiosos que o Conselho Nacional de Educação estima em 20.000 o número de alunos que “caíram fora do radar das escolas”. Em outras versões optou-se por dizer que “saíram”, mas é um detalhe menor em tempos onde discrepâncias muito maiores passam por normalidade.

Por uma vez, não me vou ocupar com a metodologia usada para o cálculo, que se terá baseado num inquérito feito a directores de escolas em quantidade que não aparece referida, que terão dado como ausentes das aulas online 2% dos alunos, presumo que do Ensino Básico e Pré-Escolar, porque se incluirmos o Secundário, o valor é mais alto. Mas isso são detalhes, porque o que realmente interessa é que será sempre grave se milhares de alunos ficarem para trás.

Prefiro focar-me um pouco mais na metáfora ou analogia usada para caracterizar mais uma função das escolas, ou seja, a de “radar”, que até pode parecer atractiva ou expressiva, mas revela uma forma de pensar a escola com que tenho dificuldades em identificar-me, porque a encara como uma espécie de faz-tudo da sociedade portuguesa. Em vez de se pensar qual a melhor forma da sociedade responder aos graves problemas que enfrentam estas crianças e jovens e @s levaram a não conseguir (ou querer) seguir o ensino não-presencial, parece achar-se que as escolas é que têm a função de detectar à distância tod@s aquel@s que dela se mantiveram afastados.

Mais uma vez, prefere-se colocar toda a responsabilidade nas escolas, sublinhando-se de novo a necessidade de recuperar aprendizagens e desenvolver trabalho portas adentro e não deixando qualquer palavra acerca do que ficou por fazer – e assim continua – fora delas, ao nível da melhoria das condições materiais de vida de dezenas de milhar de famílias por todo o país, não podendo subsídios ocasionais passar por verdadeiras “políticas sociais” que resolvam os problemas que estão por demais diagnosticados.

Sim, está certo “confiar nas escolas”, mas parece que isso só acontece em certos momentos e quando as dificuldades apertam, porque em relação a quase tudo o mais, a desconfiança é a regra.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

 

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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