DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Contextos

Nem sempre compreendo se quem anda a aconselhar a governança da Educação em Portugal, ou a tomar decisões, tem consciência de que é importante que as coisas façam algum sentido no seu conjunto. 
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Nem sempre compreendo se quem anda a aconselhar a governança da Educação em Portugal, ou a tomar decisões, tem consciência de que é importante que as coisas façam algum sentido no seu conjunto. Claro que a longa experiência que temos de múltiplas reformas, remendos e enxertos me deveria esclarecer que essa não é preocupação dominante na matéria, mas fico sempre espantado com o modo ligeiro como coisas sérias são tratadas, mesmo quando surgem envolvidas em roupagens pretensamente atractivas e apresentadas como tendo as melhores das intenções.

Veja-se o caso, noticiado há dias aqui no Educare, da “insistência de adaptar o currículo ao contexto dos alunos”. É uma fórmula que faz parte de uma corrente ideológica que defende a necessidade de “localizar” o currículo e de o “aproximar” da realidade quotidiana dos alunos, para que os conteúdos façam maior sentido e tenham um maior potencial de interesse. Opõe-se ao que se apresenta como currículos “globais”, centralizados e pouco atentos ao tal “contexto dos alunos”, com conteúdos que têm pouco significado para os alunos.

Contra esta perspectiva, de forma muito breve, gostaria de deixar duas fortes reservas:

A primeira, relaciona-se com a missão da Educação enquanto factor de transformação e emancipação dos indivíduos: será que isso é conseguido sem dar aos alunos algo que vá além do que eles conseguem vislumbrar à vista desarmada, no seu quotidiano? “Localizar” o currículo” não é negar-lhe uma dimensão mais vasta, que rasga horizontes e permite, em especial aos mais desfavorecidos, voar para além das suas limitações? Se não me choca que o “local” pode funcionar como estratégia ilustrativa de alguns conteúdos, já me arrepia a ideia de um currículo que perca a maioria dos seus referenciais universais, exactamente numa época que se diz ser de globalização.

A segunda, relacionada com a anterior, prende-se com o facto de estes dois períodos de ensino não-presencial terem demonstrado – se é que isso carecia de demonstração – que o maior problema dos alunos se encontra nas condições concretas do seu “contexto” familiar e socio-económico. Foram os diferentes “contextos” que fizeram com que as desigualdades se manifestassem de forma ainda mais intensa do que o normal. Pelo que a “localização” do currículo e a adaptação dos conteúdos ao “contexto dos alunos” será mais um grave factor de reprodução e agravamento das desigualdades pré-existentes. 

A atracção pelo “local” pode ser o passo decisivo para a atomização educativa e para a erosão do que foi um esforço de pelo menos dois séculos no sentido da Educação elevar os indivíduos para além das suas circunstâncias.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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