DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Racismos

Ouço e leio tanta coisa nos últimos meses sobre a questão do racismo na sociedade portuguesa, e na própria História de Portugal, que muito me parece mais como um exorcismo para consumo público do que propriamente uma sincera vontade de tratar do assunto com alguma seriedade.
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Ouço e leio tanta coisa nos últimos meses sobre a questão do racismo na sociedade portuguesa, e na própria História de Portugal, que muito me parece mais como um exorcismo para consumo público do que propriamente uma sincera vontade de tratar do assunto com alguma seriedade. Faz-me lembrar as sucessivas retóricas anti-pobreza e anti-desigualdade que esbarram sempre na incapacidade concreta de enfrentar os interesses económicos que poderiam ajudar a resolver muito do que se passa.

É por isso que falar sobre a questão de Odemira com os alunos é interessante, não tanto pela perspectiva do oportunismo mediático presente, mas pela da hipocrisia de quem não viu nada até à cerca sanitária da semana passada, embora tenha estado muito ocupado em achar “sinais” de racismo e colonialismo na estatuária de Lisboa. Esta perspectiva é mais útil com os meus jovens alunos porque seria ridículo, atendendo à tonalidade dominante na minha audiência, querer ensinar-lhes o que eles sentem e enfrentam na maior parte dos seus dias, principalmente fora da escola.

Os problemas com que eles (e elas, claro) e as suas famílias se deparam no seu quotidiano são bem mais sérios do que o simbolismo do Padrão dos Descobrimentos ou de quaisquer brasões que nunca viram, a decorar este ou aquele jardim. São problemas que conhecem em primeira mão e não sou eu que lhes vou ensinar quais são. O que posso ajudá-los a compreender é que enquanto anda por aí alguma gente muito entretida a “lutar” contra “símbolos da opressão”, pouco ou nada se faz contra os mecanismos efectivos dessa opressão ou das imensas desigualdades que não se resolvem com “resoluções” no Parlamento ou vigílias agendadas com o pessoal das câmaras e microfones.

O que são os efeitos do tal “racismo sistémico” eles sabem bem “em contexto”, não precisando da minha ajuda. Do que precisam é de quem os saiba ver além da fumaça, do foguetório, da cegueira selectiva e da cobardia que nunca afronta os interesses do presente, por ser mais fácil derrubar vestígios inanimados do passado. A realidade de um racismo evidente em terras e estufas de Odemira não é de hoje, mas quase todos colaborámos no seu encobrimento ou esquecimento.

Por fim, já espreitei alguns dos novos manuais de História para o 7.º e, em especial, 10.º ano e confirmei que entenderam a mensagem do momento. Andam por lá umas páginas tão politicamente correctas acerca da “escravização” no tempo da Expansão que as boas consciências podem fazer a sesta em sossego.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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