DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Calma, Setor@!

Claro que há quem ache que tudo isto é “natural”, pois, afinal, são “jovens” e tudo acaba rematado com um “nunca fizeste nada assim?”
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Desculpem continuar em tom mais neo-realista, mas há dias e semanas assim. E a pandemia não pode ser desculpa para tudo, nem antes fosse o que fosse podia ser desculpa para a má educação ou a impertinência, por muito que se diga e eu entenda que a juventude se gosta de afirmar pela “irreverência”.

A pandemia não pode ser desculpa para os horários terem passado a ser encarados por alguns alunos como um mero referencial para as aulas que ficam entre lanches e idas à casa de banho, porque esta geração do covid está com a próstata desgraçada, todos os géneros incluídos, porque os pedidos são, em média, em alguns casos, de 30 em 30 minutos. 

A pandemia não pode ser desculpa para tudo, menos para os acessos de impaciência dos professores, não sendo excepção aquele sacramental conselho, velho como as barbas do matusalém mais antigo, de “calma, setor@!” quando qualquer coisa começa a correr menos bem e merece reparo sem direito a desculpa. Confirmei cá em casa e não só e é transversal aos ciclos de escolaridade, pelo menos a partir do 5º ano. 

O aluno adolescente chega tarde, arrastando-se, sem caderno e atira-se para cadeira sem tirar a mochila das costas? Se receber aviso, sai-lhe logo um “Calmex, não s’enerve!” que é remédio santo para fazer qualquer um@ entrar em ebulição quase instantânea, acaso fosse necessário catalisador. O aluno petiz esteve a jogar até às tantas e de manhã decide espreguiçar-se em estilo, com direito a bocejo sonoro? Mal de quem lhe disser que não são maneiras de estar numa sala de aula. Leva logo com um “tenha calma, setor!” como se fosse a inconveniência fosse do reparo e não do comportamento.

Claro que há quem ache que tudo isto é “natural”, pois, afinal, são “jovens” e tudo acaba rematado com um “nunca fizeste nada assim?” Por acaso, não, que eu ia para a caminha cedo que os meninos rabinos mandavam ainda antes de haver vitinho. E se tinha sono, disfarçava e retorcia-me, mas não exibia a dentição toda para a turma confirmar as eventuais cáries infanto-juvenis.

É isto conversa que confirma a minha inelutável e irrevogável velhice? É bem possível, até porque já vou na 2ª ou 3ª geração de engraçadinhos a perguntar, quando damos as actividades económicas na Idade Média, se já havia quem fizesse panelas e como se chamava. É nessas alturas em que colocamos seriamente em dúvida as ideias do Darwin.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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