DIÁRIO DE UM PROFESSOR

O Espírito dos Tempos

O que num dado momento parece evidente, natural, dominante, quase inquestionável sem fortes riscos, não o será daí a uns tempos, após algumas décadas de perspectiva.
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Todas as épocas históricas das sociedades “ocidentais” (tendo essa caracterização deslocado a sua geografia das margens do mediterrâneo para as do Atlântico nos últimos 2500 anos) têm um contexto mental próprio, a que se convencionou chamar “espírito dos tempos”, mesmo se a definição é algo vaga.

E quem não se parece adaptar ou não alinha com todo esse “espírito” é considerado antiquado, fora do seu tempo, anacrónico. Em Portugal, há muito que se achou por bem pedir emprestado a Camões o seu “Velho do Restelo” para colar a essas figuras que resistem a deixar-se ir na onda mais forte na praia.

O problema é que são demasiados os exemplos em que esse “espírito dos tempos” se veio a revelar algo duvidoso ou, no mínimo, com muitos aspectos altamente contestáveis. O que num dado momento parece evidente, natural, dominante, quase inquestionável sem fortes riscos, não o será daí a uns tempos, após algumas décadas de perspectiva.

Basta atentarmos na forma como nos “nossos” tempos actuais se colocam em causa valores, atitudes e comportamentos de outras era, demonstrando como as certezas de um dia podem ser as dúvidas de outro. O maior problema é que essa forma de rever os valores do passado não parece ensinar muita gente a relativizar os seus próprios e a perceber que poderão estar longe de ser os únicos válidos ou mesmo “certos”. Nos anos 20 e 30 do século XX a defesa da “ditadura” na Europa como o regime mais adequado a suplantar a crise social e económica que se vivia fazia parte integrante do zeitgeist

Se há momentos da História em que o espírito dominante parece difícil de criticar (a Grécia de Péricles, o Renascimento, a Revolução Científica, as Revoluções Liberais), é porque escolhemos olhar para o seu lado mais luminoso, obliterando facetas que ferem a nossa sensibilidade presente (a misoginia de uma democracia ateniense baseada num imperialismo militar e económico, assim como na escravatura; a intolerância religiosa de grande parte da Idade Moderna europeia, a intolerância política de alguns movimentos revolucionários, como o Terror em França). Mesmo as épocas de “Progresso” têm o seu lado sombrio, mas são muitos outros os momentos em que as ideias dominantes se vieram a revelar inadequadas, décadas ou séculos depois.

Não é raro que a “razão” estivesse do lado oposto ao “espírito dos tempos” e também é mais frequente do que se quer fazer crer que é na resistência às derivas totalitárias dos senhores de cada momento que está a coragem. O “espírito dos tempos” é, por definição, passageiro. Por vezes não passa – e sei que estou a ultrapassar a conta de lugares-comuns para tão poucos parágrafos – de uma brilhante “espuma dos dias”, atractiva para quem não quer pensar um pouco mais além do que é cómodo.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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