DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Computadores

Quando as escolas fecharam de novo, alunos e professores tiveram de voltar a inventar soluções e remediar o que, desde Abril de 2020, se garantira que estaria feito.
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Em Setembro e Outubro as escolas precisaram muito que chegassem computadores para que se preparasse devidamente um período mais do que previsível de ensino à distância, para que não fosse apenas outro remendo apressado como no ano lectivo anterior.

Mas os computadores chegaram, em quantidade insuficiente, apenas em meados de Dezembro à generalidade das escolas. Já foi mais do que falado e escrito que parece que nunca se levou verdadeiramente a sério a necessidade de voltar a fechar as escolas. Era uma linha vermelha, uma espécie de ponto de honra. Uma profissão de Fé.

Quando as escolas fecharam de novo, alunos e professores tiveram de voltar a inventar soluções e remediar o que, desde Abril de 2020, se garantira que estaria feito. Mas não estava. Apareceu há dias o ministro da Educação a admitir que o ensino não-presencial tinha sido, e cito, “um falhanço”. Um falhanço anunciado seria a expressão mais correcta. Um falhanço que poderia ter sido minimizado se quem tem responsabilidades tivesse percebido o que a maioria dos professores que está no terreno sabia, assim como a generalidade das pessoas informadas e de bom senso. Portugal tem uma sociedade com uma estrutura de rendimentos muito desigual, com uma grande proporção da população a viver em condições muito precárias, que foram agravadas com os efeitos da pandemia.

Mas parece que os avisos foram encarados como feitos por pessoas com má vontade, negativas, que só sabem criticar. Mas eram avisos preocupados, atentos e devidamente informados. As condições para novo encerramento das escolas não tinham sido acauteladas. E então, perante as evidências, foi-se a correr encomendar mais computadores com o ano de 2020 a finar-se. Computadores que chegaram, após toda a tramitação cumprida, quando já se estava a regressar ao ensino presencial. Computadores que chegaram com prazo definido e fixo para serem emprestados a alunos e professores.

Ou tudo está feito até final desta semana, até final de Abril, ou tudo tem de ser devolvido à procedência. O que é estranho e mesmo ridículo. Porque fez com que andasse em cada escola um grupo de professores a preparar kits tecnológicos em correria, sem que a necessidade fosse neste momento premente e sem que se perceba porque não podem continuar a ser entregues ao longo de Maio ou até final do ano lectivo.

E sucedem-se os apelos, avisos, pedidos, para que os computadores/kits tecnológicos sejam aceites e levantados, com todos os termos de responsabilidade assinados e o indispensável registo na plataforma adequada. Tanta pressa, agora e até ver, quando o mais complicado já passou. Mas a burocracia ministerial, provavelmente com as mais administrativas razões, impõe que tudo tenha de estar pronto até final de Abril. Mas porquê?

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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