DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Conectividade

Que me desculpem, mas se acham mesmo que andarem sempre de zingarelho ligado a tilintar a toda a hora é que vos torna modernos e mais próximos dos jovens, vão ter de me continuar a ouvir o meu irritante zumbido de fundo.
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É uma guerra velha, na qual me limitei a cavar uma trincheira e a não sair dela, já que não consigo mais do que empatar as coisas. Salvo num caso, de uma memorável turma de PCA (Percursos Curriculares Alternativos), em que tinham todos mais de 16 anos, nunca aceitei fazer parte de grupos em redes sociais com alunos. Essa foi a excepção que confirmou a regra, um grupo fechado com mais uma colega e os elementos da turma para partilha de materiais e agendamento de tarefas.

Desde então, até porque dou aulas a alunos bastante novos (10-12 anos, salvo uns casos em que acompanhei turmas até ao 9.º ano), o meu limite foi sempre claro nessa matéria, por duas razões que me parecem mais do que evidentes, por muito que colegas me digam que o uso de aplicações como o WhatsApp “facilita muito a comunicação”. 

A primeira é óbvia por razões legais: existe limite de idade oficial para o uso de muitas destas vias de comunicação e se fechamos os olhos a isso, estamos a incorrer – para mais, como professores – numa prática altamente reprovável, dando um péssimo exemplo de cumprimento de normas e arruinando uma boa parte da nossa autoridade moral para criticar o uso indevido das redes sociais.

Quanto à segunda, tem a ver com aquela reserva de privacidade que devemos manter, mesmo com alunos mais velhos ou até encarregados de educação. A nossa disponibilidade não pode ser, e não me cansarei de o repetir, de 24/7 e nem pode ser essa a métrica usada para aferir da nossa dedicação aos alunos e à profissão.

Sei que esta minha atitude está longe de ser popular e sei o quanto tenho sido criticado por não me reduzir ao silêncio acerca deste assunto, por não ceder à pressão dos pares e de tantos outros que acham que este é o “espírito dos tempos” e que quem não adere à permanente conectividade é um empedernido homem das cavernas. Que me desculpem, mas se acham mesmo que andarem sempre de zingarelho ligado a tilintar a toda a hora é que vos torna modernos e mais próximos dos jovens, vão ter de me continuar a ouvir o meu irritante zumbido de fundo.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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