DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 66 – Reféns

É sempre complicado quando os adultos projectam nos mais pequenos os seus anseios ou frustrações.
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É sempre complicado quando os adultos projectam nos mais pequenos os seus anseios ou frustrações. Quando procuram, de diferentes modos, condicionar ou modelar o futuro dos seus filhos com base na sua experiência de vida, seja para a emular ou para a vingar.

Há as situações em que o desejo é que a descendência prolongue a linhagem nos seus méritos ou títulos, reais ou imaginários, e se obriga positivamente os jovens a seguir um trajecto que lhes é imposto de fora para dentro, mesmo quando a ele acabam por aderir. Ou quando se pretende que a nova geração atinja aquilo que a anterior não conseguiu. O que é compreensível e não necessariamente negativo, quando a pressão não se torna obsessiva e insensível a qualquer proposta alternativa. Só que, em tantos casos, as coisas são feitas à custa da felicidade de quem se torna mero agente das aspirações de terceiros.

Mas, tão ou mais grave, é quem torna os filhos como reféns das suas próprias incapacidades e das más opções ou dificuldades do passado, Quem parece que inveja que os novos consigam ir além do que eles foram. Quando se diz a um filho que se não se foi mais longe e mesmo assim se sobrevive, então o estudo é dispensável ou secundário. Cortar a possibilidade de voar, só porque não se conseguiu fazê-lo em seu tempo. Criar inseguranças adicionais a quem já se sente naturalmente inseguro. Querer manter domínio através de chantagens psicológicas abusivas.

Quem anda pelas escolas há algum tempo, reconhece facilmente este tipo de situações e perfis psicológicos que têm um efeito terrível sobre os mais jovens, sobre a sua auto-estima e sobre o seu potencial futuro. São fenómenos muito mais graves para o bem-estar dos alunos do que se os currículos ou programas são longos ou chatos. Até porque sempre o foram e foi isso que esteve na base do progresso humano. Já a crueldade, esteve quase sempre na origem dos piores momentos da Humanidade, à grande ou pequena escala.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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