DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 64 - Bem-estar

Nos últimos dias sucederam-se notícias, com base em inquéritos de opinião ou declarações de especialistas em áreas relacionadas com a Psicologia ou a Saúde Mental, acerca do efeito positivo do regresso à escola para as crianças e jovens do Ensino Básico. 
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Nos últimos dias sucederam-se notícias, com base em inquéritos de opinião ou declarações de especialistas em áreas relacionadas com a Psicologia ou a Saúde Mental, acerca do efeito positivo do regresso à escola para as crianças e jovens do Ensino Básico. É algo que não nego, bastando ver a alegria dos reencontros verificados na primeira semana de reabertura das escolas dos 2.º e 3.º ciclos.

O que estranhei foi a súbita mudança no tom do discurso acerca da bondade do retorno. Até há bem pouco, o foco central era no dramatismo das perdas que se estavam a verificar nas aprendizagens dos alunos, alegadamente com enormes custos financeiros associados a logo prazo, e no agravar das desigualdades já antes existentes, durante o período de ensino remoto.

Agora, passou a destacar-se a importância da escola para o bem-estar dos alunos e a necessidade de eles voltarem à escola para socializarem e não necessariamente para retomarem actividades predominantemente lectivas. Um especialista, em declarações ao Educare considerou que “desconfinar as crianças de casa e confiná-las na sala de aula, estando quietas, sentadas e caladas é um disparate completo”, acrescentando que deveriam ir para a escola para estar “com os seus amigos, estar em contacto físico com eles, fazer brincadeiras, de fuga, de perseguição, de lutas”.

Se a primeira parte do que transcrevi padece do velho mal de considerar que as aulas são uma variante de cela monástica, em que se segue uma regra de imobilidade e silêncio que desconheço, já a segunda revela uma variante daquele pensamento que considera que na escola não há qualquer risco, que a pandemia já passou e que os alunos devem retomar o seu quotidiano sem limitações. Recomendar a retoma do contacto físico e as “lutas” como brincadeira preferencial, a par de fugas e perseguições (só faltou dizer para brincar aos índios e cowboys, como faria sentido há décadas fazer-se na rua, no tempo livre), para além de revelar uma concepção muito desfasada da realidade acerca dos interesses da petizada actual, demonstra um nível de irresponsabilidade bastante acentuado.

No fundo, aconselham-se brincadeiras que contrariam frontalmente as regras de segurança sanitária que tanto trabalho têm dado a manter, mesmo que nem sempre com eficácia total. Quando estamos ainda numa fase incipiente da vacinação e longe de qualquer imunidade de grupo, havendo avisos para se evitar uma quarta vaga pandémica ainda antes do Verão, é estranho este tipo de voluntarismo, em particular em que exibe cátedra no currículo. Saudades de infâncias passadas?

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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