DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 60 – Testando

Não ajuda nada, passarmos o dia sob um bombardeamento de notícias desconexas sobre os eventuais efeitos da vacina, relatos alarmistas de quem levou a vacina e fez dói-dói (em alguns casos mais do que isso) e uma certa pressão mal disfarçada para que nos vacinemos e não coloquemos questões.
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Hoje é o dia em que irei fazer o chamado teste rápido à covid na minha escola. Seremos sete num intervalo de dez minutos, ali mesmo por cima de um daqueles intervalos de cinco minutos que mal dão para qualquer alívio, em caso de necessidade. Refiro-me, claro, principalmente a qualquer carência de cafeína ou glicémia, pois já é manhã dentro. Para domingo, recebi na 3ª feira sms a marcar vacinação, pedindo resposta a confirmar, se sim ou não. Confirmei, mas demorou muito a vir a confirmação da minha confirmação. Quase 24 horas depois, quando a maioria dos colegas recebeu segundos depois.

Pela noite de ontem (coisa das 22 horas), telefonam-me a pedir para confirmar se recebera a mensagem com os dados para a vacinação, se respondera e em que sentido e ainda se recebera a tal confirmação da confirmação. A esta altura, comecei a sentir-me céptico ou, pelo menos, indeciso sobre a natureza de todo este processo. Estão a ser meticulosos, isto é um grande enredo burocrático ou tive azar? A questão faz sentido, já que não conheço mais ninguém a quem isto tenha acontecido desta forma. Talvez durante o dia de hoje descubra que não fui o único.

Se todo este aparato, com imensa cobertura mediática, se destina a transmitir-nos segurança, há depois estes detalhes que nos deixam a pensar um pouco. Não ajuda nada, passarmos o dia sob um bombardeamento de notícias desconexas sobre os eventuais efeitos da vacina, relatos alarmistas de quem levou a vacina e fez dói-dói (em alguns casos mais do que isso) e uma certa pressão mal disfarçada para que nos vacinemos e não coloquemos questões.

Esta combinação coloca-me perante um conjunto de situações que me desagradam especialmente: falta de clareza, insegurança, alarmismo e pressão para fazer algo que começo a ter dificuldade em entender.

Sim, disse que sim, que mantenho a decisão de me vacinar. Mas se me telefonarem outra vez ou se daqui a pouco o processo de testagem voltar a fazer dupla verificação de tudo, acho que terei de ser eu a colocar algumas perguntas que não pensava inicialmente fazer. Porque não gosto de fazer algo quando sinto em volta demasiada insegurança em quem tem a missão de me fazer sentir seguro. Não me importo de fazer parte de testes e garanto que daqui a uns anos até me voluntario para qualquer projecto científico destinado a prolongar o meu tempo de observação da Terra. Mas ao menos que esteja convencido que, mesmo correndo riscos, quem está no comando sabe ao que anda.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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