DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 59 – 90 Minutos

Não deixa de ser curioso que as mesmas pessoas que criticam o ensino tradicional, cansativo, fechado em sala de aula, que não deixa tempo ou espaço aos alunos para se divertirem e brincarem, depois apoiam – ou consentem, por inacção – esta opção por aulas longas, controladas ao minuto.
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Uma das dores maiores do regresso passou por voltar a ter aulas presenciais de 90 minutos, essa completa aberração para alunos do 2.º ou mesmo do 3.º ciclo, por muito que exista quem diga o contrário, que são uma maravilha na Terra, que permitem “desenvolver projectos” ou “testar metodologias inovadoras”. Já ouvi e li isso tudo e acredito que sim, em determinadas circunstâncias. 

Felizmente, a minha escola determinou que no período de E@D as aulas mais longas seriam de 50 minutos e as mais curtas de 30. Para o 2.º ciclo, se não foi o ideal, andou lá perto. Porque a ideia peregrina, muito espalhada, de manter a miudagem 90 minutos seguidos em sessões síncronas foi para mim um total disparate.

Assim como desgosto profundamente das aulas de 90 minutos em regime presencial porque se tornam, salvo em casos específicos, desnecessariamente longas atendendo à capacidade de concentração e trabalho da generalidade dos alunos. Pior ainda em tempos pandémicos, quando as actividade de trabalho em grupo estão desaconselhadas, devido à questão da partilha de materiais e distanciamento físico.

Claro que conheço técnicas para “mitigar” (uma das palavras em moda que mais me diverte) os efeitos negativos de aulas muito longas, mas não passam de remedeios. Claro que durante os 90 minutos, há momentos em que se devem ter pausas para “respirar”, sem estar em trabalho contínuo. Em outros tempos, chamava-se a isso “intervalo”. Agora, parece que é anátema. 

Não deixa de ser curioso que as mesmas pessoas que criticam o ensino tradicional, cansativo, fechado em sala de aula, que não deixa tempo ou espaço aos alunos para se divertirem e brincarem, depois apoiam – ou consentem, por inacção – esta opção por aulas longas, controladas ao minuto.

Mesmo em tempos de pandemia, não sei se estar no exterior, em espaço aberto, em vários momentos, não será uma solução melhor do ponto de vista sanitário do que estar tanto tempo fechados na sala, 25 a 28 alunos, mais o professor, mesmo que seja com porta aberta e, quando possível, janelas entreabertas. E o que dizer (repito-me, pois já escrevi sobre isto em outros momentos) de intervalos de 5 minutos ou daqueles em que os alunos nem saem da sala? 

Nestes casos, não nego que a lógica se assemelha à do trabalho massificado e concentrado, rígido na organização do tempo e na gestão do espaço, seguindo princípios concentracionários, semelhantes aos das prisões. Que pensa que quem tanto defenda soluções flexíveis e metodologias inovadoras, diga muito pouco ou nada cerca disto. Ou melhor, pensando bem, até fale ou escreva sobre o assunto, até mesmo em formações, mas depois não faça absolutamente nada quanto a isso.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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