DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 56 – Soluções à Medida

Há muito mais aspectos que poderiam ser analisados de forma bastante crítica, mas passemos por agora para a resposta rápida e assertiva dos governantes da área perante o impacto que se qualificou como “dramático” do período de E@D.
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Já escrevi de forma clara, embora breve, que tenho reservas sobre a metodologia da amostra do IAVE e sobre a adequação das ferramentas de avaliação usadas no “Estudo Diagnóstico das Aprendizagens” que tentou avaliar os efeitos da pandemia no desempenho escolar nos alunos do 3.º, 6.º e 9.º anos. Há muito mais aspectos que poderiam ser analisados de forma bastante crítica, mas passemos por agora para a resposta rápida e assertiva dos governantes da área perante o impacto que se qualificou como “dramático” do período de E@D.

Perante sugestões lançadas para o público ainda antes de se conhecerem os dados do estudo feito, por parte de especialistas que farão parte de um grupo de trabalho que irá produzir um conjunto de propostas sobre o que fazer, o ministro da pasta (Público, 30 de Março) “esclareceu que esse grupo de trabalho ‘é só um contributo’ que se juntará a ‘todos os outros contributos dos actores normais nas nossas escolas’ que o Ministério da Educação também vai recolher nas próximas semanas”. Mais decidido, em passagem pela Comissão de Educação da Assembleia da República, o seu secretário de Estado fez declarações mais conclusivas, recusando a ideia de prolongar o tempo de aulas e mostrando-se muito favorável ao encurtamento dos programas e conteúdos a leccionar.

De acordo com a mesma notícia “esta solução foi admitida pelo secretário de Estado da Educação, João Costa, numa audição no Parlamento, esta terça-feira”, esclarecendo que “o Governo afasta também que o plano de recuperação passe por dar mais tempo de aulas aos alunos, seja através de reforços de horário ou de escolas de Verão”. O que dá a entender que, no essencial, já está mais ou menos decidido o que se vai fazer, apenas se encenando aquela parte da consulta a “todos os outros contributos dos actores normais nas nossas escolas”, para citar o ministro.

A questão é que o ano já foi prolongado em duas semanas para compensar os dias em que estiveram suspensas as actividades lectivas. Para além de que se sabe que o encurtamento dos programas é um anseio pré-pandémico de alguns “actores normais na nossa Educação”, que sobre isso produziram abundantes declarações de fé ao longo dos anos.

Pelo que me parece legítimo concluir que este “diagnóstico” se destinou mais a legitimar medidas há muito desejadas, mas que levantam alguns problemas políticos claros, do que a aferir verdadeiramente os efeitos da pandemia. O contexto pandémico criou a “oportunidade” ideal para que voltem a ganhar força certas teses que consideram que não adianta dar mais horas de aulas aos alunos, a menos que sejam de “áreas disciplinares” criadas a gosto desta ou daquele. Que o currículo está obeso e sobrecarregado, excepto se for para lá colocar programas e conteúdos que devem mais a modas transitórias do que a competências estruturantes.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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