DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 52 – Um País de Especialistas

Desculpem-me, mas cansa estar sempre a ouvir, por exemplo, críticas à formação de professores por parte de quem fez toda uma carreira a formá-los. Se algo está mal e falhou, grande parte da culpa é mesmo vossa. Tenham a coragem de o admitir.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir

Não é exclusivo da Educação, mas Portugal tem um exército numeroso de especialistas em quase todas as áreas imagináveis da existência, com destaque para aquelas em que o desempenho do país é pior ou em que se diz que falhámos de forma recorrente. Veja-se o caso da Economia: apesar de termos um atraso económico endémico e de não aproveitarmos as sucessivas vagas de dinheiros europeus para o conseguir contrariar, abundam os especialistas em Economia, alguns mesmo economistas, de formação devidamente certificada em Universidades bem conceituadas.

Mas o caso da Educação é mais singular porque, com algumas honrosas excepções, o nosso núcleio de especialistas mantém-se o mesmo há várias décadas, apenas crescendo em discípulos. E com as mesmas ideias, apesar da passagem do tempo, porque, apesar de estarem sempre perto do poder político e fazerem parte do inner circle da maior parte dos decisores desde finais dos anos 80, fazem sempre o mesmo diagnóstico dos problemas existentes e apresentam quase sempre as mesmas sugestões para os solucionar. Os nomes permanecem, apenas existindo uma relativa rotação nos cargos ocupados, ora mais na sombra, ora mais à vista das câmaras. E é legítimo questionarmo-nos porque será que, ao fim de tanto tempo, ainda não conseguiram mudar o “paradigma” a seu gosto. Não tem sido por falta de oportunidade ou tempo.

Esta situação de pandemia e de ensino remoto não tem sido execepção. No seu núcleo essencial, os especialistas que agora são chamados para analisar a situação “dramática” de “perda de aprendizagens” diferem pouco dos que ainda há um ano apresentavam este contexto como ideal para fazer “avançar a Educação para o século XXI” e amesquinhavam quem (quase sempre professores no terreno, meros leigos, portanto) antevia um período muito problemático.

E é essa a nossa triste sina. Quem falhou na previsão do que iria acontecer (por arrogância? por incompetência? por manifesto desconhecimento da realidade?), agora é chamado para apresentar soluções para os problemas que não foram capazes de antever.
E sou capaz de apostar que irão apresentar propostas muito pouco diferentes das que fazem há anos, em todos os grupos de trabalho, estruturas de missão, gabinestes de crise em que participaram, assim como em todas as dezenas de colóquos, debates ou congressos em que tiveram papel de destaque.

Os nossos especialistas em Educação, justiça lhes seja feita, são coerentes e consistentes. Com mais ou menos polimento na retórica e umas variações no vocabulário, dizem o mesmo há pelo menos uns 30 anos, como se o tempo não tivesse passado e eles não tenham estado quase todo ele na órbita do poder, associados às políticas colocadas em prática e à numerosa legislação produzida, como consultores, mentores, formadores. Desculpem-me, mas cansa estar sempre a ouvir, por exemplo, críticas à formação de professores por parte de quem fez toda uma carreira a formá-los. Se algo está mal e falhou, grande parte da culpa é mesmo vossa. Tenham a coragem de o admitir.

* Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.