DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 50 – Uma Enorme Precipitação

Vou começar pela evidente precipitação que parece ter tomado de assalto de forma transversal alguns velhos e novos gurus da Educação Nacional, sendo que a alguns tamanhas preocupações com a matéria não deixam de parecer tardias na carreira e padecer de uma visão muito distante da realidade da maior parte do país, enquanto a outros dão oportunidade para desenterrar as mesmas estratégias de sempre.
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Nos últimos dias, continuou em alguns sectores da opinião publicada a evidente obsessão com as “aprendizagens perdidas” por causa da pandemia. De escolas de Verão à repetição de todo um ano lectivo, passando por um esquema de tutorias cujo funcionamento gostaria de perceber, tivemos um sortido rico de propostas que culminou com o anterior ministro da Educação a sugerir a realização de uma parafernália de testes nacionais aos alunos que regressam às aulas presenciais daqui a uma semana.

Tudo isto é um pouco estranho e merece uma atenção que se estenderá por mais de um verbete diário, porque há por aqui imensos equívocos, abundante incoerência e uma enorme precipitação nesta correria para arranjar soluções para um problema que, mesmo existindo, está a ser claramente exagerado.

Vou começar pela evidente precipitação que parece ter tomado de assalto de forma transversal alguns velhos e novos gurus da Educação Nacional, sendo que a alguns tamanhas preocupações com a matéria não deixam de parecer tardias na carreira e padecer de uma visão muito distante da realidade da maior parte do país, enquanto a outros dão oportunidade para desenterrar as mesmas estratégias de sempre.

Mas comecemos pelo princípio: será que duas semanas sem aulas (compensadas com a extensão do ano lectivo) e menos de dois meses de ensino remoto produziram assim tamanha “perda de aprendizagens”? Com que base empírica isso é afirmado, quando nem sequer foi feita a avaliação deste período e o ano passado terminou com níveis recorde de sucesso? Foi feita avaliação a “olhómetro”, lá por casa, com os filhos ou netinhos?

Claro que não sou ingénuo e conheço por dentro como foi necessário adaptar as ferramentas e critérios de avaliação em tempos de E@D, o que levou a muita “água benta”. Mas, concordando que o ensino à distância, em especial no Ensino Básico, é de muito menor eficácia do que presencial, há elementos para declarar que nada se ganhou e tudo se perdeu? Esse tipo de balanço, muito antes da lavagem dos cestos, é ainda mais estranho quando se ouve ou lê isso a gente que tantas loas teceu ao uso de meios digitais na Educação ou que sempre declarou que as escolas estavam preparadas para o “desafio”.

E no actual contexto, que acertadamente justificou a anulação de provas de aferição e provas finais, vamos partir para a realização de testes nacionais a todos os alunos? Como, quando, em que moldes, com que referenciais? Não será essa obsessão, no presente, apenas um elemento adicional de perturbação e consumo de tempo? Digo eu, que até gosto de exames e tudo. Só que se deve manter algum bom senso no meio disto tudo e cada vez estou mais convencido que a pandemia está a servir de pretexto para que a Educação fique de novo à mercê de uma nova vaga de grupos de pressão, sempre disponíveis para arrendar os seus serviços.
 

* Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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