DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 49 – Escolas de Verão

Padecendo de um provincianismo atávico (estudei no nosso torrão, fiz poucas férias cosmopolitas, nunca estive mais de duas semanas fora), só tenho a vantagem de, mesmo quando dele discordo fortemente, conhecer o tal “povo” cujos direitos e bem comum muitos dizem defender. 
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Há grupos de pessoas que, a cada ciclo político, nos surgem em destaque na comunicação social com aquele tipo de atitudes e propostas que nos demonstram o quanto se sentem incomodadas com o país em que vivem, desejando reformá-lo de cima abaixo num par de anos, através da importação de práticas que conheceram em outras sociedades por onde passaram uns anos, em estudos ou em trabalho.

As últimas décadas têm sido férteis neste tipo de “movimentos de opinião”, que querem transformar o país que temos com base nuns debates feitos em tertúlias de estrangeirados esclarecidos, quais nascentes de vanguardas refundadoras da pasmaceira nacional.

É bem verdade que não é nada de novo e, em diversos momentos, a sinceridade do ímpeto foi notória, bem como dignas as pretensões de combater o atraso endémico em que mergulhámos há séculos. Tivemos os estrangeirados do Iluminismo, assim como tivemos os de Oitocentos com Garrett e Eça à cabeça. Mas também tivemos os que, ali pelos anos 60 do século XX, foram estudar lá por fora e, para além dos “ares de liberdade”, inalaram profundamente realidades sociais e culturais que mantiveram bem vivo o desconforto intelectual com a “piolheira”.

O mesmo se passa no século XXI com uma geração que, também fruto de estadias lá por fora em ambientes privilegiados, quer espalhar entre nós os bons hábitos de outros povos mais desenvolvidos, da Finlândia a Singapura, da Nova Inglaterra aos campos de Oxbridge, não esquecendo alguns territórios protegidos da velha Europa continental.
A ideia de compensar as muito anunciadas “aprendizagens perdidas” neste período de ensino digital do século XXI que afinal não foi bem o que se pensava, através da criação de “escolas de Verão” até é boa, em especial para aqueles que menos delas precisam. Porque os que delas mais precisariam, dificilmente as podem ter ou sequer estarão muito interessados nisso, em especial se não for em modo de atl alargado.

Padecendo de um provincianismo atávico (estudei no nosso torrão, fiz poucas férias cosmopolitas, nunca estive mais de duas semanas fora), só tenho a vantagem de, mesmo quando dele discordo fortemente, conhecer o tal “povo” cujos direitos e bem comum muitos dizem defender. Porque há poucas coisas mais ridículas do que aquele escuteiro bem intencionado que obriga a velhota a atravessar a rua, só para a ajudar, quando ela apenas queria ir para casa, do lado da rua onde já estava. E que fica ofendido quando a anciã lhe diz isso mesmo.

Pode parecer paradoxal – quiçá contra-intuitivo – mas as “escolas de Verão” seriam mais um factor de desigualdade, por motivos similares aos que tornaram o E@D um acelerador dos fenómenos que se pretendem combater. Porque as condições são muito diferentes e sem se lançar os alicerces de um edifício, adianta pouco colocar louças das mais modernas em sanitários por construir. Se é que me perdoam a analogia.

* Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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