DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 45 – O Ónus da Prova

A recta final de qualquer período é marcada por todo o aparato que agora rodeia a avaliação dos alunos. O que a tecnologia poderia facilitar, a mentalidade burocrática faz por dificultar, criando múltiplos mecanismos de controlo do trabalho dos professores, de quem parece normal desconfiar-se.
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A recta final de qualquer período é marcada por todo o aparato que agora rodeia a avaliação dos alunos. O que a tecnologia poderia facilitar, a mentalidade burocrática faz por dificultar, criando múltiplos mecanismos de controlo do trabalho dos professores, de quem parece normal desconfiar-se. Até porque, mesmo que nem sempre de forma explícita, o exemplo vem de onde menos se deveria esperar e é complicado lutar contra a tendência instalada em alguns círculos de opinião e decisão de que é o professor que está à prova quando é feita a avaliação dos alunos.

O que poderia ser algo salutar tornou-se uma espécie de preconceito obsessivo. Parece-me claro que decisões sobre o futuro dos alunos, em especial em finais de ano lectivo, não podem ser tomadas de ânimo leve e deve exigir-se responsabilidade e fundamentação. Mas já me parece um abuso que se considere que o “insucesso” dos alunos é sempre culpa dos professores, mesmo quando ainda se vai a meio do processo. Mesmo em situações em que pouco ou nada depende deles. A retórica do “direito ao sucesso” culpa a falta de competência dos professores se os alunos não atingem os resultados desejados e aponta o dedo à “escola” e à falta de interesse dos conteúdos, quando se verificam casos de falta de assiduidade. Se há indisciplina é porque os docentes não sabem gerir a sala de aula, as emoções e tudo o mais. Se há violência é porque não entendem o contexto envolvente.

O ónus da prova passou a estar quase em exclusivo naquele grupo de pessoas a que, de todas no país, se exige que façam a sua parte e a dos outros. Pode parecer queixa repetida e cansativa, mas não é bem assim. É a realidade, relatada por tantas e tantos colegas que, chegados a estes momentos, passam a sofrer da ansiedade que antes se dizia atingir os alunos. Até porque a partir de dentro da própria docência há quem suporte as teses da culpabilização unilateral. E aproveite casos particulares para generalizações abusivas.

E em dias de distanciamento, o apoio falta e o isolamento fragiliza. As solidariedades escasseiam, porque muitas vezes é necessário o conforto da proximidade. Afortunados os que conseguem ainda encontrar apoio onde seria mais improvável, atendendo a muito do que se diz, ou seja, nos próprios alunos. Que, amiúde, são os primeiros a compreender com quem eles trabalha diariamente, quando não são pressionados para servirem de arma de arremesso de adultos a quem sobra em arrogância o que falta em carácter.

Que me perdoem os que acham que traço um quadro cinzento, deficitário em “positividade” e outros chavões de ocasião. Mas não posso pintar com cores garridas o que observo, só porque chegaram as andorinhas e a Primavera.

* Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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