DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 44 – Auto-Censura

Só lamento mesmo que ainda não tenha chegado o momento certo para que possa fazer o relato do que de mais triste se anda a passar, porque a auto-censura também é uma espécie de vírus que nos vai contaminando.
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Sou obrigado a confessar que ao longo deste diário tenho exercido uma violenta auto-censura para não descrever algumas das situações concretas que mais me têm chocado ao longo destas semanas. Um par delas de que tenho conhecimento directo e outras que me vão sendo relatadas por colegas. Quase todas se relacionam com o modo abusivo como têm sido tratad@s vári@s professor@s neste contexto de ensino à distância, em que tudo parece ser possível, quando a falta de educação ou carácter fica à distância de uma mensagem, de uma acusação, de uma descarga de frustração ou de um abuso de poder.

No meu caso, impenitente e renitente no facultar do meu número de telefone pessoal salvo em situações de emergência, não há assim tanto a registar (mas há sempre as excepções que fogem à regra). Mas há situações que me são relatadas que não é possível divugar sem colocar em cheque identidades e eu não gosto de expor quem já se sente suficientemente fragilizado com o que lhe acontece, receando consequências piores.

Não podendo entrar em detalhes, pelas razões expostas, é possível pelo menos referir que há duas situações dominentes: a da avaliação do desempenho, em que os desmandos e – não há que recear – as falcatruas se tornaram quase impossíveis de contrariar e a da forma como alguns alunos ou encarregados de educação acham que se podem dirigir aos professores (cansei-me de usar por agora o @, pelo que me fico pelo masculino de uso comum), quando algo não lhes agrada ou quando acham que a intimidação é a estratégia certa para se afirmarem e amesquinharem os outros.

Nestes casos, acho que a estratégia correcta é a da resistência e réplica, mas sem nunca descer ao nível de quem usa a falsidade ou o abuso de poder como forma de vida. A mentira não pode vencer, mesmo na forma da pós-verdade ou da novilíngua. A insinuação não pode fazer as vezes dos factos. Porque quem se encolhe dá terreno para que avance esta modalidade de negrume que se aproveita da distância para se expandir.

Só lamento mesmo que ainda não tenha chegado o momento certo para que possa fazer o relato do que de mais triste se anda a passar, porque a auto-censura também é uma espécie de vírus que nos vai contaminando.

* Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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