DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 43 – Perdas e Ganhos

A pandemia é dramática e um desastre a imensos níveis, mas também é um momento em que muita gente é obrigada a “crescer”, adultos incluídos, perante a adversidade. Claro que muitos de nós experimentámos perdas. Desde logo, de pessoas conhecidas, amigos, familiares. Perdeu-se qualidade de vida. Perderam-se rendimentos. Perdemos liberdade.
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Sente-se uma quase obsessão quanto a uma alegadamente dramática “perda das aprendizagens” dos alunos em tempos de pandemia e ensino remoto. O que é tanto mais surpreendente em quem há pouco tempo defendia que isso dos conhecimentos e aprendizagens representava o passado e que o futuro de faz de competências e outras coisas assim inscritas em “perfis”.

Já no ano lectivo passado, pareceu existir uma preocupação imensa com as aprendizagens formais que deveriam ter sido feitas e não foram, quando se defende que os processos educativos não devem ser encarados de forma rígida e que é mais benéfico se os desenvolvermos numa perspectiva de ciclo ou mesmo numa lógica de articulação vertical do currículo.

Em termos pessoais, estou mais preocupado, no regresso ao regime presencial, em dialogar com os alunos acerca de toda esta experiência que estamos a atravessar e o seu significado para todos nós, enquanto Humanidade e enquanto seres individuais, num tempo em que até as doenças ganharam uma dimensão global e o esforço colectivo é essencial para combater as ameaças.

Por outro lado, será que os alunos apenas “perderam” durante este tempo? Afinal, a vida das crianças e jovens ganha-se ou perde-se apenas em cálculos de tempos lectivos presenciais? Não será esse um modo muito redutor de encarar as coisas? A vida não é muito mais do que escola e mais escola? No meu tempo – sei que arcaico e que não pode nem deve servir de modelo – a vida era escola, mas muito mais. Mas parece que já não é assim. Parece que para algumas pessoas, a vida da miudagem se resume a ficar na escola e exercitar polegares nos ecrãs, para efeitos “sociais”. Mas deve ser muito mais do que isso. Há quem fale na necessidade de as crianças brincarem, mas depois parece que se assustam quando têm de brincar com elas, quando ficam em casa.

A pandemia é dramática e um desastre a imensos níveis, mas também é um momento em que muita gente é obrigada a “crescer”, adultos incluídos, perante a adversidade. Claro que muitos de nós experimentámos perdas. Desde logo, de pessoas conhecidas, amigos, familiares. Perdeu-se qualidade de vida. Perderam-se rendimentos. Perdemos liberdade. Ainda estamos com o nosso futuro próximo limitado. Essas são consequências, no meu entendimento, mais relevantes e importantes de debater do que se ficou uma classe de palavras por dar, uma sequência de conteúdos de História, uma unidade de Matemática ou de Educação Visual, algum vocabulário de Inglês por leccionar.

Mas, embora admita que pelas piores razões, algo se ganhou em termos de compreensão da fragilidade da espécie humana e da sua relação com a Natureza. Isso também se deve qualificar como aprendizagem. E uma aprendizagem muito importante. Uma aprendizagem que, se devidamente enquadrada pelos adultos, pode não ter apenas efeitos negativos para esta geração nascida já em pelo século XXI.

* Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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