DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 40– Memórias

Aprendi a “nadar”, mergulhado na piscina até ao pescoço. Dei três meses de aulas, no fim de Junho já tinha sido posto a andar, com uns 90 dias de serviço e sem direito a subsídio de qualquer coisa. No ano seguinte, voltei a concorrer só para a noite e não consegui colocação, apesar de já ter concluído o curso e durante um punhado de anos fui fazendo substituições curtas, enquanto me desenrascava com outras ocupações que agora dizemos precárias.
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Passam por estes dias 34 anos que entrei pela primeira vez numa sala de aula como professor, quando já levava quase 16 como aluno. O que significa que lá para Outubro deste ano passa meio século inteiro que, com algumas pausas, ando pelas escolas. O que dá uma certa perspectiva quando se ouvem e lêem certas retóricas sobre Educação de quem parece que descobriu agora tudo ou que dá sensação de estar a ensinar aos outros o que ninguém terá ouvido, decadas atrás. O que também dá um certo desânimo quando se ouvem ou lêem certas dúvidas e dilemas que a experiència já deveria ter, no mínimo, ajudado a minorar.

Como muit@s colegas da minha geração, comecei quando ainda era aluno na Universidade, fazendo substituições, e não sabia se ficaria muito tempo. Como ainda era aluno, tinha-me candidatado no mini-concurso apenas a horários nocturnos, pelo que foi assim que me estreei, com cinco turmas, duas de 9.º ano à noite (por causa da idade dos alunos, pois a escolaridade obrigatória de nove anos era recente e muita gente tinha regressado à escola), duas do 3.º ano do Curso Geral (equivalente ao 9.º Unificado), e uma do 1.º ano do Curso Complementar (equivalente ao 10.º). Nestas três últimas turmas, eu era um dos mais novos na sala. E, ia -me esquecendo, fiquei com duas direcções de turma, quando o tempo era de registos de assiduidade com folhas A4 para fazer cruzinhas e daquelas pautas enormes, feitas a caneta, com preto/azul e vermelho e ai de quem se enganasse num quadradinho, que tinha logo de fazer outra.

Aprendi a “nadar”, mergulhado na piscina até ao pescoço. Dei três meses de aulas, no fim de Junho já tinha sido posto a andar, com uns 90 dias de serviço e sem direito a subsídio de qualquer coisa. No ano seguinte, voltei a concorrer só para a noite e não consegui colocação, apesar de já ter concluído o curso e durante um punhado de anos fui fazendo substituições curtas, enquanto me desenrascava com outras ocupações que agora dizemos precárias. Era novo, tinha poucos encargos. Mas a cada ano ia-me ambientando melhor e não desgostava. Fiquei e fui aprendendo a ser professor. E muita coisa mudou e eu também mudei em parte com elas. 

O que me irrita, confesso, por estes dias, é observar como tanta gente demora imenso tempo a aprender algumas das coisas mais básicas do ser professor. Aliás, o que me irrita mesmo é aquela gente que acha que por dar aulas sabe imenso de muita coisa, excepto do que têm de andar sempre a perguntar, ano após ano, como se fossem daqueles alunos que, infelizmente existem, não aprendem nem que se lhes explique o mesmo, vezes sem fim, das mais variadas maneiras possíveis. 

Esta não é uma queixa de velho contra novos, porque o mal atinge todas as idades. É uma questão de atitude. Há a quem bata logo ao fim de um par de anos na docência, enquanto há a quem bata quando entram para um qualquer quadro (de zona, de agrupamento) ou quando já acham que chegaram a uma fase da carreira em que não sentem obrigação de aprender mais nada. É uma mistura estranha de sabedoria imensa com ignorância extrema. Há quem saiba imenso de metodologias e tecnologias, dissertando sobre o assunto nas redes sociais sem que ninguém tenha solicitado tão informado contributo, mas depois não consiga preencher o raio de um formulário online ou perceber uma série de alíneas de um qualquer normativo legal e ande a perguntar tudo aos que ainda há dias qualificava como ineptos.

Garanto-vos que é algo que quase me cansa mais do que uma turma daquelas grandes, cheias de problemas parecidos aos das minhas turmas, quando era aluno.

* Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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