DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 32 – Representações

Sendo que eu, tanto como pai e encarregado de educação, como enquanto professor, sinto um enorme défice de “representação” quando ouço ou leio as intervenções de representantes das “famílias”, das “escolas” ou dos “professores”. Eles falam, falam, mas não dizem nada em que me reconheça.
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A etimologia da palavra “representação” tem origem no latim repraesentatio, que tinha então uma multiplicidade de significados, dos quais estava ausente qualquer noção vagamente próxima da que actualmente se usa para designar a acção de pessoas a “representar” outras, podendo surgir a falar e a actuar em seu nome ou a da existência de  instituições políticas como instâncias de “representação” e exercício de poderes em nome de grupos mais ou menos alargados de indivíduos. Na Infopédia, alinham-se dezassete significados distintos para o termo.

Em complemento, o termo latino repraesentare significava de uma forma literal “colocar à frente” ou “estar à frente de” e, neste caso, talvez encontremos alguma afinidade com alguns dos usos presentes. Assim como “representação” foi progressivamente ganhando, em português, uma ligação estreita ao teatro, considerando-se que os actores “representam” quando desempenham o papel das personagens de uma peça. 

E assim nos vamos aproximando do papel que nos dias de hoje é “representado” pelos “representantes” de quase tudo e mais alguma coisa, em particular na Educação. Sendo que eu, tanto como pai e encarregado de educação, como enquanto professor, sinto um enorme défice de “representação” quando ouço ou leio as intervenções de representantes das “famílias”, das “escolas” ou dos “professores”. Eles falam, falam, mas não dizem nada em que me reconheça. Mas reconheço neles uma “voz” que parece vir do exterior, como se fossem os bonecos de um ventríloquo. 

Em muito as situações, a sensação que tenho é a de que as pessoas que surgem incumbidas de “representar” determinados interesses de grupo, são mais actores que “representam” os papéis que lhes foram destinados numa peça já escrita do que agentes de uma vontade colectiva de que são transmissores. Até porque no sentido político contemporâneo de “representação”, em especial em sociedades que se consideram democráticas, deveria restar algum vestígio de relação entre “representantes” e “representados”, um qualquer mecanismo de consulta que legitimasse as posições assumidas publicamente.

Mas o que resta é outra coisa, é o tal papel de actores em busca de aprovação, não público, mas dos produtores da peça em exibição.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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