DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 30 – Cepticismos

O que me está a parecer – logo a mim, que tenho fama de problemático - é que se confirma que há uma parcela de qualquer amostra da população que tem sempre reservas quanto a tudo e mais alguma coisa. E que isso não tem relação directa com o nível de instrução.
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Quando se começam a ter algumas garantias acerca das condições de regresso às aulas presenciais, ao nível da testagem e mesmo de uma possível vacinação do corpo docente, eis que surge uma variante de cepticismo, quase de negacionismo, em relação à pandemia, protagonizada por aquelas pessoas que acham dispensável ser testadas ou que consideram isso como quase um atentado à sua liberdade.

Deixando de lado aquela explicação relacionada com o desconforto da zaragatoa (eu tenho uma sinusite muito aborrecida que vai ser um desafio para qualquer teste, mas não é por isso que recuso ser testado), ficam uns argumentos que me deixam algo perplexo em gente devidamente qualificada.

Em primeiro lugar, ser testado para detecção de uma doença altamente contagiosa é assim uma ofensa tão grande aos direitos individuais? É assim uma coisa tão intrusiva, atendendo às circunstâncias e aos benefícios potenciais? Ou vamos começar por contestar a validade da testagem porque, afinal, tem alguma margem de erro? Não será que se está a esconder com isso uma disfarçada atitude de negação quanto à gravidade da pandemia?

Em segundo lugar, não parece claro que a testagem é, para além de outras considerações, algo que revela uma atitude de cuidado com os outros, já que – como com as vacinas ou o uso de máscaras – quem a recusa está a colocar-se na posição de ser um agente da doença e, por isso mesmo, potenciar o contágio num ambiente com tantas interacções como são as escolas?

Em terceiro lugar, acho de uma extrema incoerência que quem defendeu o confinamento e o encerramento das escolas por razões de saúde e de contenção dos contágios, surja agora a contestar medidas que visam garantir que, pelo menos em parte, a sua reabertura será mais segura do que foi o seu funcionamento no final do 1.º período e após o Natal e Ano Novo. Para além de que é um péssimo exemplo para os próprios alunos.

Estou longe de ser um fanático de algumas das medidas securitárias nascidas da pandemia e partilho das reservas acerca do grau de eficácia dos chamados “testes rápidos”, mas entre fazê-los e recusá-los, tenho escassas dúvidas acerca da atitude correcta e de qual defende verdadeiros valores de uma cidadania activa e preocupada com a saúde de todos.

O que me está a parecer – logo a mim, que tenho fama de problemático - é que se confirma que há uma parcela de qualquer amostra da população que tem sempre reservas quanto a tudo e mais alguma coisa. E que isso não tem relação directa com o nível de instrução.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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