DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 28 – Avaliações

Este ano não é excepção e receberam-se os “Princípios Orientadores para uma Avaliação Pedagógica em Ensino a Distância (E@D)” e lá temos direito a mais uma lição dos especialistas em avaliação do Ministério da Educação, mesmo se raramente deram aulas nos contextos acerca do quais dissertam. Esta não é uma excepção, pois a impressão digital da autora ficou no documento e assim é fácil achar-se o trajecto de quem nunca teve de aplicar o que teoriza.
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Todos os anos recebemos nas escolas orientações sobre a avaliação dos alunos. Todos os anos somos bombardeados com a mesma condescendência dos teóricos e burocratas acerca das metodologias que devemos adoptar para melhor e mais justamente avaliar os alunos, de modo formativo, diferenciado, equitativo, individualizado, flexível, motivador, mobilizador, etc, etc, etc, como se tivessemos anualmente de revisitar sebentas dos tempos da formação inicial ou da profissionalização.

Este ano não é excepção e receberam-se os “Princípios Orientadores para uma Avaliação Pedagógica em Ensino a Distância (E@D)” e lá temos direito a mais uma lição dos especialistas em avaliação do Ministério da Educação, mesmo se raramente deram aulas nos contextos acerca do quais dissertam. Esta não é uma excepção, pois a impressão digital da autora ficou no documento e assim é fácil achar-se o trajecto de quem nunca teve de aplicar o que teoriza.

No documento temos sucessivas pérolas como, logo a abrir, “o novo cenário de ensino a distância torna obrigatória a necessidade de repensar o processo de ensino e de aprendizagem, provocando, por isso, adaptações na forma como se avalia” ou, mais adiante, que “para uma maior fiabilidade no processo avaliativo, devem combinar-se diferentes processos de recolha de dados, em contextos diferenciados. Os instrumentos e as técnicas devem ser adequados à tarefa e às competências a mobilizar”.

Uma pessoa lê aquilo e sente o tédio entrar por todos os poros.

Mas entende-se que é mais uma mensagem para que o povo docente perceba que tudo deve ser feito em prol do sucesso dos alunos. E eu até concordo, mas não precisaria de 11 páginas a explicar isso de forma extensiva.

Aquilo que me aflige é que a mesma lógica não se aplique à avaliação do desempenho dos docentes, a qual está pensada e é aplicada exactamente no sentido contrário: o de garantir que se impede o “sucesso” à maioria dos docentes, com um sistema de quotas de progressão que se diz premiar o mérito, mas que é aplicado de forma burocrática nos dias bons e de forma clientelar nos outros. A avaliação do desempenho dos docentes segue a lógica do funil e é tudo menos flexível, diferenciada, formativa e tudo aquilo que se diz serem o alfa, ómega, beta e ipsilon da avaliação dos alunos. E por estes anos, resultado do descongelamento e da mitigada recuperação de uma parcela do tempo de serviço amputado, tem sido possível comprovar como o modelo é injusto, iníquo e permeável aos piores instintos de quem tem o poder, mas raramente a competência ou o carácter.

O direito ao sucesso parece que nasce apenas num sentido e deve ser assegurado por aqueles a quem não se aplica.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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