DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 26 – Incompreensões

E há situações que nos incomodam, mesmo se acontecem apenas, apesar do que transparece em alguma opinião publicada, num número limitado de casos. Mas a incompreensão em relação ao esforço alheio sente-se mais quando é claramente injustificado e quando nem se parecem entender as condições em que somos obrigados a trabalhar, em especial quando se é docente e mãe/pai.
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Apesar do isolamento pandémico e de vivermos em casulos pouco comunicantes em termos presenciais (embora cada vez mais o trânsito nos demonstre que o confinamento já teve melhores dias), restam entre a classe docente alguns hábitos de partilha de experiências, agruras e também algumas coisas menos más.

E não é raro que se estabeleçam diálogos fora da esfera pública das redes sociais em que contamos o que nos vai marcando o quotidiano, ao fim de quase um mês desta segunda vaga de ensino remoto.

E há situações que nos incomodam, mesmo se acontecem apenas, apesar do que transparece em alguma opinião publicada, num número limitado de casos. Mas a incompreensão em relação ao esforço alheio sente-se mais quando é claramente injustificado e quando nem se parecem entender as condições em que somos obrigados a trabalhar, em especial quando se é docente e mãe/pai.

Repito que se trata de um minoria de casos e que se consegue perceber que é quase sempre uma tentativa de aliviar tensão e de tirar desforço, mas isso não é justificação para atitudes desajustadas.

Há dias, tomei conhecimento de uma situação em que alguém (encarregado de educação) pressionava os professores de uma turma com sucessivas mensagens por mail e nas “salas virtuais” de um dos seus educandos a pedir esclarecimentos sobre as tarefas por aqueles solicitadas. E fazendo ameaças quando não lhe respondiam de forma imediata ou como achava ser a forma certa.

O que estas pessoas não parecem entender é que com aulas via Teams ou Classroom, os professores ficam com o seu mail “oficial” submerso por mensagens porque ou desligam as notificações (e têm de andar de sala em sala, publicação a publicação em buca de comentários) ou o ritmo diário é de muitas dezenas ou mesmo centenas, quando se leccionam 6, 7 ou 8 turmas e cada aluno (podem ser 100, 150 ou mesmo 200) decide colocar uma dúvida ou fazer um reparo qualquer. No caso das direcções de turma em escolas onde a presença d@ DT é obrigatória em todas as salas, a sobrecarga é brutal, sendo aparentemente de difícil compreensão para quem tem um par de petizes em casa e já acha que é muito e que as suas dificuldades são o centro do mundo.

Mas o pior de tudo é quando se recebem – e apesar de poucas, deixam “nódoa” – mensagens que se percebe serem propositadamente acintosas e nascidas de uma maldade evidente, de uma vontade de magoar as outras pessoas. Em tempos, disseram-me que tenho um colchão mental que me protege deste tipo de coisas, mas há quem tenha uma sensibilidade menos áspera do que a minha e são quase sempre as pessoas mais fracas que mais sentem este tipo de injustiça.

Falam-me em agravamento do estado de saúde mental devido à pandemia e eu acredito. Mas também acho que há quem já estivesse muito doente antes dela.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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