DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 25 – Ansiedades

Não sei como colocar isto de forma mais subtil, mas pela minha observação directa ao longo de mais de três décadas como professor (e outras como criança e jovem, sendo que o meu “acho que” vale tanto como qualquer outro), as situações de ansiedade em crianças e adolescentes são, numa larga maioria, induzidas pelos adultos que as rodeiam.
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Como alguém que conhece de perto, desde logo na primeira pessoa, já em idade adulta, o que são estados de ansiedade extrema, desgosta-me imenso que se fale de um assunto bastante sério de forma ligeira e oportunista. E isso tem acontecido da pior forma possível nos últimos tempos, instrumentalizando a saúde mental de crianças e jovens como argumento em disputas que deveriam manter-se no campo da política.

Têm-se multiplicado notícias, baseadas em testemunhos impressionistas, de que a saúde mental das crianças está a ser afectada de forma indelével pelo encerramento das escolas e que a sua reabertura é essencial para que não aumentem os estados de ansiedade infantil e juvenil. Eu pensava que era a situação pandémica e de confinamento, bem como as consequências dramtáticas na saúde e vida de familiares, que provocariam tal desequilíbrio, mas parece que não. Afinal, é a falta de escolas abertas.

Não sei como colocar isto de forma mais subtil, mas pela minha observação directa ao longo de mais de três décadas como professor (e outras como criança e jovem, sendo que o meu “acho que” vale tanto como qualquer outro), as situações de ansiedade em crianças e adolescentes são, numa larga maioria, induzidas pelos adultos que as rodeiam.

Sim, pode ser desagradável de ler, mas é o que tenho constatado. Quando uma criança apresenta um estado de ansiedade acima do razoável é quase certo que existe um adulto, ou mais, por perto que lhe causa esse distúrbio. Ou porque temos adultos inseguros, que não conseguem assumir um papel parental que estruture o quotidiano dos mais novos ou porque, fruto de razões diversas, há adultos que “abafam” a petizada com exigências e pressões diversas para que cumpram um papel que faz sentido para aqueles, mas ainda não para estes. E há sempre aquele fenómeno da projecção de frustrações, próprias de quem não conseguiu provar algo com a sua vida, em quem ainda não se consegue defender e tenta tudo para agradar às figuras que lhes aparecem como modelos naturais a seguir ou satisfazer. A situação que vivemos aumenta a ansiedade em quase todos nós, pelo que colocar o ónus disso nas crianças é desonesto e um truque que só agrava o que já é complicado de gerir. Seria bom que os adultos se vissem ao espelho e fossem sinceros perante o seu reflexo. Não será que algumas crianças (e não generalizemos abusivamente) estão mais ansiosas porque os adultos de proximidade não conseguem assumir o seu papel protector e estabilizador que lhes compete?

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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