DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 23 – Os Novos Planos Quinquenais

A Educação não-presencial, para além de todas as suas limitações, recuperou a lógica centralizadora dos velhos planos quinquenais, agora à micro-escala dos cinco dias úteis de cada semana.
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Com o pretexto de ser necessário planificar o trabalho neste período de ensino à distância, generalizou-se a exigência de os Conselhos de Turma, através dos Directores de Turma, elaborarem um plano semanal de trabalho e o comunicarem antecipadamente aos alunos. O que parece ser, à primeira vista, uma medida razoável para reduzir as incertezas destes tempos não-presenciais acaba por ser, num sentido menos superficial, um novo mecanismo burocrático de controlo do trabalho docente e, porventura mais grave, o triunfo de uma visão rígida e anquilosada desse mesmo trabalho.

Estes planos a cinco dias, nos quais se devem verter todas as actividades a realizar durante a semana, significam o esmagamento de uma metodologia de trabalho flexível e adaptável às circunstâncias de cada aula e aos imponderáveis que nela podem surgir, não apenas os técnicos, mas principalmente os humanos.

O entendimento que partilho, de que o plano de trabalho semanal é, no essencial, o horário das aulas, ficando a forma e ritmo do seu desenvolvimento enquadrados numa planificação geral, mas seguindo uma lógica aberta, foi completamente ultrapassado por uma atitude que privilegia a micro-planificação, espartilhada nas boas e velhas grelhas de quadradinhos e rectângulos onde se inscreve tudo aquilo que a aula será, para ser mais fácil a verificação do seu cumprimento e quase impossível, sem risco de insubordinação, o traçar de um caminho de autonomia e flexibilidade, como tanto se tem apregoado.

Não sendo eu propriamente um apóstolo das teorias construtivistas, fico sinceramente desanimado com o modo como se tenta transformar o trabalho entre alunos e professores num processo em que a previsibilidade e a homogeneização se disfarçam sob o manto do “trabalho colaborativo”. Como o controlo burocrático se tenta camuflar com um verniz de necessidade de facultar informação às famílias.

A Educação não-presencial, para além de todas as suas limitações, recuperou a lógica centralizadora dos velhos planos quinquenais, agora à micro-escala dos cinco dias úteis de cada semana.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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