DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 20 – Vacinas e Aspirinas

Perante a situação de emergência há dois caminhos a seguir: um é o da identificação atempada de problemas e busca de soluções para prevenir uma nova crise (podemos usar a analogia da vacina); o outro é o das reacções atrasadas e defesa de remédios de efeito rápido, mas que não curam a doença (como se fossem analgésicos, para efeito rápido sobre a dor) e nem sequer actuam sobre a sua origem.
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Quando as escolas fecharam pela primeira vez, no confinamento iniciado em Março de 2020, houve quem avisasse para os riscos de uma situação de ensino à distância para a qual uma quantidade apreciável de alunos (20-25%) não tinha condições. Era uma evidência que não nascia apenas de estatísticas do INE ou do Ministério da Educação, mas do conhecimento das condições concretas no terreno. A falta de condições era material (falta de equipamentos, desde a completa ausência à necessidade de os partilhar, passando pela sua inadequação), mas também era de tipo cultural (uma literacia digital muito reduzida e vocacionada para aplicações lúdicas ou publicações em redes sociais).

A chamada de atenção para que esta situação fosse em parte resolvida para que desigualdades pré-existentes não se agravassem foi encarada por muitos e pelo próprio poder político como problemática, porque em vez de nos concentrarmos nas soluções de curto prazo que operacionalizassem um E@D de emergência, se estavam a levantar questões estruturais que não era possível resolver no imediato. Mas seguiram-se promessas de que tudo seria diferente num segundo eventual confinamento no Outono-Inverno. Lembramo-nos disso e dos milhões anunciados. Assim como da pressão, a partir de dado momento, para que se reabrissem as escolas o mais rapidamente possível, nem sempre com as melhores justificações, mas quase sempre com muita demagogia.

Quando as escolas fecharam pela segunda vez, neste confinamento iniciado em Janeiro de 2021, houve quem fizesse o reparo que tais promessas não tinham sido cumpridas na sua maior parte e que os problemas se mantinham. Que teria sido muito importante que os avisos tivessem sido levados a sério e que os apoios a alunos e famílias não se ficassem pela cosmética. Nessa altura, houve um silêncio evidente da parte dos que tinham sido favoráveis ao relaxamento das medidas de controlo da pandemia por altura do Natal e nada foi dito sobre o incumprimento das promessas feitas em Abril de 2020.

E eis que, passadas as primeiras semanas do segundo confinamento mais a sério, surgem de novo as mesmas vozes a clamar pela reabertura das escolas, mas agora afinando o tiro e apresentando como principal argumento as perdas maiores que o encerramento das actividades lectivas presenciais significa para os mais desfavorecidos. Repare-se que pouco ou nada se diz sobre o que deveria ter sido feito e não foi, apesar do tempo passado e do dinheiro que se dizia existir.

Uma economista da moda ajuda ao movimento de reabertura das escolas com um estudo em que calcula os eventuais milhões perdidos com a manutenção do encerramento e multiplica isso, de forma quase exponencial, por décadas e apresenta números aterradores de perdas para a economia. Um pouco como aqueles matemáticos que apresentaram números sobre a evolução dos contágios, sem ter em conta as medidas de contenção, esta economista apresenta uma progressão de perdas, como se nada fosse feito, após o período mais crítico, para as reduzir e inverter. O que está longe de ser uma forma séria de tratar o problema. Um carro quer comece a perder velocidade ou pare num dado momento, quando é reparado e recomeça a andar, deixar de ficar mais para trás e até pode recuperar parte do atraso. O mesmo acontece com a questão educacional. Aliás, foi assim que aconteceu nas últimas décadas, com a enorme recuperação de uma série de indicadores, em que éramos dos piores da Europa e agora já estamos acima da média.

Perante a situação de emergência há dois caminhos a seguir: um é o da identificação atempada de problemas e busca de soluções para prevenir uma nova crise (podemos usar a analogia da vacina); o outro é o das reacções atrasadas e defesa de remédios de efeito rápido, mas que não curam a doença (como se fossem analgésicos, para efeito rápido sobre a dor) e nem sequer actuam sobre a sua origem.

Eu prefiro as vacinas.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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