DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 18 – Bom Povo Português

De acordo com uma sondagem conhecida ontem, mais de 80% dos inquiridos concorda com o fecho das escolas e que elas assim se mantenham nas próximas semanas. Este resultado entra em claro conflito com a atitude de grande parte da opinião publicada e mediatizada. Porque se lermos ou ouvirmos muito do que surge nos jornais ou nos canais televisivos de notícias, ficamos convictos que a maioria dos portugueses está contra o encerramento das escolas e as quer abertas o mais depressa possível.
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Esta desconformidade entre a opinião da população sem voz pública, que se manifesta apenas através do seu número, em resposta a um inquérito anónimo, e a de uma elite (económica, cultural, política) com acesso rápido à comunicação social não é fenómeno inédito. Pelo contrário, é recorrente e revela o modo abusivo como tanta vez aparece gente “notável” a apresentar como sendo “geral”, do “povo” ou da “maioria da população” aquilo que não passa do interesse de um grupo restrito de pessoas, que assim oculta conveniências particulares com um véu de “bem comum”.

Na área da Educação esta situação acontece com uma desnecessária frequência e não é raro termos quem defenda com enorme clamor soluções, apresentadas como sendo as melhores para todos, que vão ao encontro das suas prioridades pessoais. Recordo-me, por exemplo, do caso de grupos que defendem muito os “cheques-ensino” a a liberdade de escolha, argumentando que só assim os mais desfavorecidos podem ter acesso às “melhores escolas” da rede privada, quando se sabe que isso é uma completa miragem e que tais cheques só serviram para comparticipar as despesas de quem já tem a possibilidade de entrar em tais estabelecimentos.

Com a reabertura das escolas passa-se algo com uma dose de hipocrisia semelhante. Apresenta-se a medida como uma necessidade maior para os que sofrem maiores fenómenos de exclusão e desigualdade, como se a escola as apagasse num toque de magia; declara-se que as escolas fechadas são prejudiciais principalmente para quem tem menos meios para trabalhar e tem as crianças e jovens em casa e eu até posso concordar. Mas, quando se pergunta directamente aos alegados interessados, percebe-se que a maior preocupação é com a saúde e as questões de vida e morte com as quais tiveram e têm um contacto bem mais presente e imediato do que quem vive em “bolhas” de privilégio e debate as prioridades em tertúlias de acesso reservado.

Nem sequer falta quem, na falta de legitimação das suas opiniões sobre o “bem comum”, apareça a dizer que o povo nem sabe o que é bom para si, a menos que concorde com quem sabe do assunto em profundidade, após informada reflexão.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.  

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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