DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 17 – Rotinas

Uma pretensa “nova” normalidade tem de assentar em novas rotinas, estabelecidas com paciência e atenção ao que funciona minimamente e o que acaba por estar apenas a criar uma desnecessária ansiedade. E quando tanto se começa a falar em “saúde mental” (de alunos, mas de igual modo de professores e encarregados de educação), é fulcral que se busque o tal equilíbrio entre o conhecido e o novo, que as “novas” rotinas tenham as tais “luzes” que iluminem o caminho, mas que o façam no entendimento de que este é um caminho diferente do que estávamos habituados a percorrer.
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir

Tenho uma relação pouco pacífica com as rotinas: reconheço-lhes alguns méritos, mas aborrecem-me terrivelmente quando se tornam omnipresentes e limitam de forma muito rígida a nossa capacidade de fazer algo diferente, de experimentar e transformar o que nos rodeia.

Percebo a necessidade de rotinas, em especial entre os mais novos, como factor de segurança, como uma espécie de luzes que ficam à beira do caminho e nos guiam o percurso de forma a não nos perdermos ou estarmos sempre a testar possibilidades. A escola é feita de rotinas em grande parte por causa disso. Porque é necessário, por exemplo, transmitir padrões de conduta às crianças e jovens como elemento estruturante do seu quotidiano, de modo a dar-lhes um ambiente no qual se sintam seguros e não vulneráveis a uma permanente insegurança.

O professor deve ser um elemento estabilizador e, por isso mesmo, gerador de rotinas. Que são positivas para os alunos, se não se tornarem demasiado opressivas para todos. O que nem todos compreendem quando criticam alguma padronização da vida escolar, é que as crianças e jovens necessitam disso e quando lhes falta, percebe-se na maioria a desorientação que nasce da perda de pontos reconhecíveis para a organização do seu quotidiano e mesmo para a sua estabilidade mental.

É evidente que nem tudo pode ser assente em rotinas e que o elemento de surpresa deve estar presente mas, para ser surpresa, deve significar uma quebra de rotina e não a regra que destrói toda a segurança em idades em que ela é indispenável.

Neste período de E@D, um dos problemas mais críticos foi o da criação de novas rotinas na quantidade certa para que a insegurança seja reduzida, mas sem que tudo se torne um enorme aborrecimento. Se é importante que o novo quotidiano ganhe alguns contornos familiares, também importa que esses contornos não mimetizem por completo o do ensino presencial, porque o ambiente é muito diferente. Não se pode transpor a “normalidade” da vivência escolar presencial para o espaço virtual, sendo um equívoco a pretensão de que isso é possível com a cópia de horários e métodos de trabalho.

Uma pretensa “nova” normalidade tem de assentar em novas rotinas, estabelecidas com paciência e atenção ao que funciona minimamente e o que acaba por estar apenas a criar uma desnecessária ansiedade. E quando tanto se começa a falar em “saúde mental” (de alunos, mas de igual modo de professores e encarregados de educação), é fulcral que se busque o tal equilíbrio entre o conhecido e o novo, que as “novas” rotinas tenham as tais “luzes” que iluminem o caminho, mas que o façam no entendimento de que este é um caminho diferente do que estávamos habituados a percorrer.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
    • a
    • a
  • comunidade
  • comentar
  • imprimir
Comentários
Inicie sessão ou registe-se gratuitamente para assinar os comentários
  • submeter
  • cancelar
  • visualizar
Não existem comentários. Dê-nos a sua opinião!
 
Para salvaguardar o bom funcionamento deste espaço, todos os comentários são sujeitos a um processo de filtragem e validação editorial, pelo que só serão aceites participações sem linguagem obscena, difamatória, ameaçadora ou caluniosa.

O EDUCARE.PT reserva-se o direito de não validar todos os comentários que não se enquadrem nestes pressupostos e que não se relacionem, única e exclusivamente, com a atualidade educativa.
Recordamos ainda que todas as mensagens são da exclusiva responsabilidade dos participantes, nomeadamente, no que respeita à veracidade dos dados e das informações transmitidas.