DIÁRIO DE UM PROFESSOR

Dia 15 – Não aos TPPC!

Como professor, já confessei que atribuo poucos trabalhos para casa e praticamente nenhum para pais em casa. Mesmo agora. E como pai em casa encaro também as coisas assim. Pena é que nem todos consigam esta aconselhável esquizofrenia. Quem fica a perder são os alunos, entalados entre a espada escolar e a parede doméstica.
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Um dos “debates” sobre Educação (as aspas têm a sua razão de ser) que de forma recorrente aparece na comunicação social é o dos “trabalhos para casa”, os bons e velhos têpêcês ou “tortura para crianças” como há muito são conhecidos. Meto-lhe aspas porque para existir um debate a sério convém que existam posições em confronto que sejam defendidas com alguma base empírica alargada e não apenas a partir de crenças criadas sobre impressionismos pessoais.

Só que, infelizmente, parte substancial do “debate” assenta em lamentos de encarregados de educação que sentem que lhes está a ser pedido um esforço adicional no acompanhamento dos seus educandos, achando que o trabalho escolar deve ficar dos portões da escola para dentro. Em seu apoio, surge este ou aquele “representante” parental e um punhado de psicólogos ou pedopsiquiatras com ar de quem está a enfrentar um adamastor, reforçando a “denúncia” do excesso de trabalho exigido às “famílias”.

E eu concordo. Em parte. E até já fui apanhado publicamente a defender que os trabalhos para casa devem ser reduzidos ao mínimo essencial. Para felicidade dos meus alunos. Mas pratico o que enuncio e qualquer aluno meu sabe como sou escasso em tarefas para realizar fora da sala de aula. Um ou outro trabalho de pesquisa, alguma coisa que tenha ficado por acabar. Podem passar-se semanas e semanas sem nenhuma malfeitoria dessas.

Mas… também me parece que, mesmo existindo professor@s que por vezes se excedem nos pedidos, existe um exagero notório nas queixas. Até porque os trabalhos são para ser feitos em casa pelos alunos, não por mães/pais. Sim, podem e até devem ajudar, mas apenas isso. O erro está dos dois lados (professor@s e pais), quando se entende que os trabalhos não são para ser feitos principal ou mesmo exclusivamente pelos alunos. E depois há trabalhos de pais a ser avaliados como se fossem de alunos. Até porque alguns só com muita dificuldade seriam feitos pelos mais pequenos.

Só que em E@D, todos os trabalhos são para casa, em sincronia ou não. Mas não devem ser TPPC, ou seja, trabalhos para pais em casa. Porque muitos dos adultos que agora ficam pelo domicílio em permanência, ou estão em teletrabalho ou podem não estar com o melhor estado de espírito. E entendo alguns protestos com a sobrecarga de solicitações. Até porque também sou encarregado de educação e sei o que isso é. A dobrar. Porque estou dos dois lados da falsa trincheira. E em qualquer um deles sempre preferi adoptar algum equilíbrio.

Como professor, já confessei que atribuo poucos trabalhos para casa e praticamente nenhum para pais em casa. Mesmo agora. E como pai em casa encaro também as coisas assim. Pena é que nem todos consigam esta aconselhável esquizofrenia. Quem fica a perder são os alunos, entalados entre a espada escolar e a parede doméstica.

*Por decisão do autor, o presente texto não segue o novo Acordo Ortográfico.

Paulo GuinoteProfessor do Ensino Básico, doutorado em História da Educação. Autor do blogue O Meu Quintal
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